Francisco Louçã candidato presidencial
Francisco Louçã, 48 anos, abraçou os ideais da esquerda revolucionária ainda estudante, liderou o extinto PSR e destacou-se com os seus dotes de oratória na Assembleia da República, chegando hoje a candidato presidencial pelo Bloco de Esquerda.
Francisco Anacleto Louçã foi, com Luís Fazenda (UDP), Fernando Rosas (ex-PCP) e Miguel Portas (Política XXI) um dos fundadores do Bloco de Esquerda, em 1999, "partido de causas" que em seis anos conquistou um lugar importante na política portuguesa.
Assumindo uma postura discreta, Louçã recusou desde sempre assumir-se como o líder formal do BE, mas os seus dotes de oratória cedo lhe deram o protagonismo. Em Maio passado foi nomeado coordenador da comissão política do partido.
Conquistada a visibilidade na Assembleia da República, a sua missão, desde Maio, tem sido implantar o BE, que conquistou o eleitorado urbano do litoral, nas últimas legislastivas.
Na Assembleia da República reergueu algumas das tradicionais bandeiras da esquerda como a luta contra o racismo, a ecologia, direitos dos homossexuais, os imigrantes e das mulheres.
No Parlamento pertence às comissões da área de economia e finanças e, durante uma legislatura, à comissão de liberdades, direitos e garantias.
Foi um dos intervenientes na preparação da reforma fiscal de 2000, tendo conseguido a aprovação dos projectos sobre a criminalização da violência doméstica, o acesso à contracepção de emergência, despenalização do consumo de drogas e sobre as medicinas alternativas.
Deputado na Assembleia da República desde 1999 e reputado professor de Economia, Louçã é reservado na vida privada.
Alguns pormenores transparecem, porém, como o facto de não beber, não fazer desporto e evitar ver televisão, que considera mais perigosa do que a Internet e extremamente solitária.
Os amigos "acusam-no" de ser paranóico com os horários, mas Louçã defende-se afirmando que só com a disciplina contraria a tendência natural para a dispersão.
A esquerda foi uma influência familiar, já que o avô materno, Alberto das Neves, era um anarco-sindicalista fundador do PCP em 1923.
Nasceu em Lisboa em 1956, não foi baptizado nem teve formação católica, mas acompanhou vários católicos progressistas. Mais tarde foi convidado para o MES (Movimento da Esquerda Socialista), o que recusou, por se considerar mais radical.
Aos 13 anos teve ligações com a LCI (Liga Comunista Internacionalista) e aos 16 anos foi detido e levado para Caxias.
Em 1973 adere formalmente à LCI e faz parte da sua estrutura de direcção aquando do 25 de Abril de 1974, participando na luta política desde então.
Hoje considera que o 25 de Abril e o período entre 1974/75 representaram a melhor época da sua vida, mas também uma decepção que chegou com o 25 de Novembro.
Desiludido, partiu para o Brasil em 1978, onde acompanhou a luta dos metalúrgicos. Juntou-se às manifestações no Uruguai, esteve nas rusgas em Santiago do Chile e assistiu ao sofrimento das mães da Praça de Maio, em Buenos Aires.
Louçã sempre pugnou por uma união das esquerdas, mas na altura de optar, rejeitou o PCP, considerando-o uma alternativa insuportável, um partido pesado, repressivo e sem atractivos libertários.
Regressou a Lisboa e aos estudos. No secundário foi o melhor aluno nacional em matemática e formou-se em economia no ISEG, onde lecciona.
Sempre discreto, cativou as turmas por onde passou com as suas ideias sobre o PSR (Partido Socialista Revolucionário que sucedeu à LCI e de inspiração trotskista), mas nem todos se deixaram convencer, foi o caso de Pina Moura, colega de muitos trabalhos de grupo.
No início dos anos 90 já encabeçava a esquerda desalinhada. No ano seguinte falhou a eleição para deputado por uma unha negra, o que o levou a Inglaterra para tirar o doutoramento. Quatro anos depois falhou outra eleição, mas em 1999 avançou como cabeça de lista pelo BE em Lisboa ao parlamento, tendo sido eleito.
Garante que não se rende à "droga mais poderosa, a do poder", até porque não quer repetir a história do avô, que fundou o PCP, mas acabou deputado do PPD/PSD na Constituinte.