Fugir da guerra em Tashkent para encontrar o amor em Lisboa
Lolita fugiu do Uzbequistão em 2003 para se ver livre da guerra entre Governo e rebeldes muçulmanos. Sem destino, veio dar a Lisboa, onde se refugiou junto de um bielorusso, Alex, com quem casou.
Do casamento já nasceu uma filha: Alice, de oito meses, uma nova lisboeta ainda sem nacionalidade portuguesa.
Para trás, Lolita deixou Tashkent, capital uzbeque, e os recontros entre tropas fiéis ao presidente Islam Karimov e rebeldes islâmicos que atingiam a antiga república da União Soviética.
Deixou também pais e irmã, tal como a licenciatura em Enfermagem e o curso de Inglês e Russo.
Lolita tinha "os olhos postos no futuro", como disse à agência Lusa, embora este fosse "um desconhecido" que residia algures na Europa Ocidental.
Sem passaporte ou outros documentos que a "legalizassem" como imigrante, Lolita, com apenas 26 anos, fez-se à estrada. Umas vezes a pagar, outras à boleia até chegar à Rússia.
Depois da Rússia foi para a Turquia, onde chegou de barco.
Mais uma viagem, igualmente de barco, desta vez até Espanha. Por último, Lisboa.
Dez dias durou a viagem desde o longínquo Uzbequistão até Portugal, país que desconhecia "de todo" e onde tudo "era estranho".
Os maiores problemas ocorreram nos primeiros dias: sem dizer uma palavra de português, Lolita percorreu as ruas de Lisboa onde, conta, encontrou uma senhora que falava Inglês e que a levou ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras do Areeiro.
Estava dado o "primeiro passo do início de uma nova vida, de um final feliz" que começou a desenhar-se em Março de 2003, quando pisou pela primeira vez a capital portuguesa.
"Os portugueses, a amizade e o carinho que demonstram é das melhores coisas que conheço", diz, num português tímido, esta uzbeque que se considera um "caso de sucesso" em integração de refugiados.
Além dos dois meses que permaneceu no centro da Bobadela (o prazo legal de permanência naquele centro de acolhimento temporário do Conselho Português para os Refugiados (CPR)), Lolita passou ainda pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Em Setembro de 2003 já estava a trabalhar, apesar de não ser propriamente "naquilo com que sonhara", conta.
Empregada doméstica e funcionária de uma adega foram alguns dos trabalhos temporários que teve antes de entrar para o parque de estacionamento do Saldanha Residence, em Lisboa, onde em Maio cumpriu um ano de trabalho.
Lolita e Alex moram no Bairro do Oriente, em Lisboa, numa casa alugada de uma assoalhada, pela qual pagam 320 euros e anseiam agora obter um empréstimo para comprar casa própria, com um quarto para a filha.
Apesar de lamentar o passado e da "ausência" que sente da família que abandonou, Lolita sente-se "compensada" com o amor que encontrou em Alex.
E com o futuro que espera que Portugal lhe reserve: a nacionalidade portuguesa para Alice.