Funcionários portugueses em Bruxelas
Funcionários portugueses das instituições comunitárias em Bruxelas, ouvidos pela Lusa, são unânimes em considerar que o processo de integração europeia, iniciado há meio século, em Roma, "mudou tudo". Na Europa, em Portugal e nas respectivas vidas pessoais.
Na sua maioria estabelecidos há muitos anos na "capital" da UE - cerca de 1.600 portugueses trabalham para as diversas instituições europeias, em Bruxelas -, têm em comum uma visão conhecedora e quase apaixonada do projecto europeu, iniciado em 1957, um discurso profundamente europeísta, mas também alguma apreensão quanto ao futuro da União.
Também comum a estes funcionários portugueses destacados em Bruxelas são as saudades de Portugal e o desejo de um dia regressarem a um país que, na opinião de todos, beneficiou extraordinariamente com a adesão às então Comunidades Europeias, em 1986. E nem conseguem conceber como estaria Portugal, se, num cenário absurdo, estivesse fora da União.
Amadeu Sabino, 64 anos, actualmente o mais antigo funcionário português no Conselho (de Ministros) da UE, onde é director no serviço jurídico, continua a ver a UE como um garante da paz e estabilidade no "Velho Continente" e, embora admita dificuldades no futuro do processo de integração europeia, numa União cada vez mais ampla, sublinha que este "é o único caminho" a seguir.
"A única alternativa é o regresso às fronteiras, diferendos entre Estados e aquilo que foi o passado da Europa: a guerra", adverte.
Lembrando que uma Europa unida com os países do Leste era impensável em 1986, ano em que chegou a Bruxelas, José Luís Pacheco, 50 anos, administrador da comissão de Assuntos Constitucionais do Parlamento Europeu, considera que o alargamento continua a ser "um imperativo moral" e constitui "um dos grandes sucessos" da UE.
Mas avisa que é vital levar a cabo reformas e resolver, designadamente, o problema institucional, sob pena de o processo de integração fracassar.
"Já fui mais optimista. Tudo o que se passou com a Constituição Europeia e crises paralelas alertou-me que o processo não é irreversível. É preciso estar atento todos os dias", considera, apontando o perigo de uma "estagnação" e posterior "desagregação", que, em sua opinião, deixaria os países europeus numa posição muito fragilizada.
"Há muitos problemas e problemas novos, em relação aos quais os Estados isolados não podem fazer nada", sustenta.
Para João Faria, 50 anos, quadro superior na unidade de Política Regional da Comissão Europeia, "o grande desafio para o futuro" é ver até que ponto o alargamento e as novas realidades são compatíveis com a ideia inicial dos "pais fundadores" da União, como entidade supranacional.
"A dimensão (da UE) implica uma mudança da natureza do projecto" e uma Europa (para já) a 27 não é o mesmo que uma Europa a seis, alertou João Faria.
Também Orlando Fachada, 47 anos, funcionário na Comissão Europeia, na Direcção-Geral das Pescas, admite que o alargamento não veio facilitar o processo de integração: "é mais difícil trabalhar a 27 que a 12 ou a seis". Mas considera que (o alargamento) "faz parte" do processo e é "preferível a outra dinâmica geo-estratégica".
Olhando para o projecto europeu desde a adesão de Portugal, este funcionário considera que, "nos últimos 20 anos, a Europa consolidou tudo o que tinha feito, progrediu bem, e Portugal tem acompanhado essa evolução, ainda que com alguns altos e baixos".
Unânime entre todos é a opinião de que Portugal tirou muitos dividendos da sua adesão à UE, e não apenas financeiros.
"O Portugal de hoje não tem nada a ver com o Portugal que deixei", em 1984, diz Amadeu Sabino, apontando "a mudança em termos económicos e sociais" que a adesão à União permitiu.
Para João Faria, a entrada na União representou, acima de tudo, "uma abertura ao exterior" e a possibilidade de o país dar "uma série de saltos rápidos" no seu desenvolvimento, designadamente através da entrada de fundos comunitários.
José Luís Pacheco também destaca o "progresso material espantoso" verificado em Portugal desde a adesão e a "abertura mental" que a entrada na Europa proporcionou aos portugueses: "mesmo com o 25 de Abril, continuávamos um bocado limitados na nossa visão do Mundo".
Considera "impensável" o cenário de Portugal fora da União, questionando-se se seria possível resolver as graves crises económicas e financeiras que o país já atravessou num quadro democrático.
Apontando como exemplo a moeda única, comenta que "as pessoas queixam-se muito de Bruxelas, mas se calhar a vida era muito mais difícil, as dificuldades políticas acrescidas e seria mais complicado resolvê-las no quadro democrático".
Já Orlando Fachada considera que o desenvolvimento económico "foi mais espectacular que o social", comentando que "é mais fácil fazer obras do que mudar mentalidades e formar pessoas", um dos "défices" do país, de cariz "estrutural".
Mas é a Portugal que a maioria dos funcionários portugueses em Bruxelas pensa regressar "um dia", uma vez terminada a sua "tarefa europeia".
"Penso regressar, mas, provavelmente, apenas quando terminar a carreira", diz Orlando Fachada, que chegou a Bruxelas com 27 anos e é casado com uma cidadã belga, o que, admite, "não vai facilitar" o regresso às origens.
Também João Faria e José Luís Pacheco, apesar de se congratularem com a "enriquecedora" experiência "bruxelense", iniciada, respectivamente, em 1989 e 1986, pensam regressar a Portugal, mas dizem igualmente ser difícil apontar uma data.
Uma ideia um pouco diferente tem Orlando Fachada, que chegou a Bruxelas em 1984 (ainda antes de Portugal entrar na União).
"Regressar ou não, para mim, não é uma questão que se ponha.
Não me sinto no estrangeiro. Considero-me também europeu e `bruxelense`. Hoje, a União Europeia, para mim, não é o estrangeiro", considerou.