Greve de um mês nos consulados na Suíça esgota paciência de emigrantes

Lisboa, 28 set (Lusa) - A greve dos trabalhadores dos consulados está a esgotar a paciência dos emigrantes portugueses na Suíça, que há mais de um mês não conseguem fazer o cartão de cidadão ou registar os filhos.

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Fernando Anunciação vive em Zurique há mais de 30 anos e quando decidiu regressar definitivamente a Portugal percebeu que tinha o bilhete de identidade caducado.

"Qual não foi o meu espanto quando fui ao consulado e vejo que estão em greve. Tenho que enviar a carta de demissão até sexta-feira e vai-me fazer falta o cartão de cidadão para vários papéis. Francamente não sei o que vou fazer, não sei...", disse à Agência Lusa, por telefone.

Cinquenta e seis funcionários consulares dos postos de Berna, Genebra e Zurique, Sion e Lugano) iniciaram a 29 de agosto uma greve por tempo indeterminado por falta de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros relativamente aos salários.

Um mês depois, não há fim à vista para a paralisação, que está a deixar a comunidade à beira de um ataque de nervos.

"Já quase há um mês que estão nisto. O Governo português não está a funcionar bem com a comunidade. Se não conseguir resolver o problema, vou ter que pôr o Estado português em tribunal porque isto é inadmissível", lamentou Fernando Anunciação.

O português adiantou que no consulado de Zurique apenas são distribuídos formulários e que ninguém dá informação sobre alternativas para a obtenção de documentos.

Fernando Anunciação conta ainda o caso da filha que perdeu o passaporte e acabou por ficar sem o dinheiro do bilhete de avião que tinha comprado para viajar para a Turquia.

Emília Farinha, que gere uma agência de viagens, fala da falta de registo de vários recém-nascidos.

"Temos tido várias situações de bebés que nasceram recentemente na Suíça, cujos pais não os conseguem registar nos consulados, nem fazer os passaportes, e que por esse motivo têm que cancelar as férias", disse.

A empresária acrescentou que a situação "está a causar imensos transtornos" e que as pessoas começam a ficar "agressivas e muito descontentes".

"Uma pessoa que não tenha passaporte para o filho não pode sair daqui, está preso na Suíça", sublinhou, lembrando que o mesmo acontece com as autorizações de viagem para menores.

Por tudo isto, diz Emília Farinha, a comunidade está "bastante revoltada" porque não percebe porque é que o consulado está fechado.

A contestação à falta serviços consulares é percetível também na Internet, com fóruns e páginas sobre diplomacia e consulados a registarem queixas e desabafos dos utentes.

"Estou desesperado para renovar o meu passaporte. Todo o pessoal consular esta de greve e vou perder muita coisa se não puder viajar no dia 08 de outubro para os Estados Unidos", escreveu um utente no site http://embassy-finder.com/, na parte relativa ao consulado de Portugal em Genebra.

"As pessoas têm alguma compreensão pelas reivindicações dos trabalhadores consulares, mas, ao mesmo tempo, não deixam de manifestar algum descontentamento, sobretudo aqueles que, nesta altura, precisavam de documentos urgentes", disse à Agência Lusa António da Cunha, presidente da Federação das Associações Portuguesas na Suíça.

O responsável pela federação sublinhou que a greve vem agravar a situação provocada pelo fim das "presenças consulares descentralizadas em algumas cidades", indicando que muitas pessoas têm dificuldades em aceder aos serviços dos consulados.

Por seu lado, Delfim Ramos, presidente do Centro Português de Neuchatel, afirmou que recebe muitas pessoas na associação que procuram informações sobre a greve e se mostram muito insatisfeitas por não conseguirem aceder aos serviços consulares.

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