Gripe das aves não assusta quem gosta de dar milho aos pombos
O vírus da gripe das aves não assusta aqueles que gostam de dar milho aos pombos nas praças e jardins de Lisboa, que apenas receiam ser "contaminados" com alguma multa por ser proibida a alimentação de animais na via pública.
Apesar de serem cada vez menos, devido às acções de sensibilização da Câmara Municipal de Lisboa e da legislação que proíbe a alimentação de "animais errantes", ainda existem muitos lisboetas teimosos que não abdicam de alimentar estes "pobres animais".
A proibição de atrair "animais errantes" com alimentos está definida num regulamento camarário e está sujeita a aplicação de uma coima por parte da Polícia Municipal.
Antes de aplicar a coima, os agentes da Polícia Municipal (PM) tentam informar as pessoas sobre os problemas que os pombos podem provocar, mas quando estas são reincidentes acabam mesmo por ser multadas.
"As coimas que aplicamos são poucas, mas aplicamos", afirmou à agência Lusa o comissário Nunes da PM, adiantando que a maioria das pessoas alimenta os pombos "às escondidas".
Há 20 anos que Rui Costa tem o hábito de, todos os dias de manhã, ir dar bocadinhos de pão aos pombos que poisam na Praça da Figueira.
Rui Costa confessou à Lusa que conhece a legislação, mas argumenta que "os passarinhos precisam de ser alimentados" e "não fazem mal a ninguém".
Sobre a possibilidade de os pombos poderem transmitir gripe das aves, Rui Costa disse que nunca pensou nisso, mas garantiu não ter qualquer receio: "os pombos estão imunes a isso".
Virada para a Praça da Figueira, a Loja das Sementes continua a vender milho a quem queira alimentar os pombos que abundam naquela praça emblemática, situada entre o Rossio e o Martim Moniz.
Os primeiros clientes a entrar na loja são mesmo os pombos, que vão à procura de sementes que tenham ficado caídas no chão, contou à Lusa uma funcionária do estabelecimento, Sandra.
"As pessoas continuam a comprar milho para dar aos pombos e nem sequer falam da gripe das aves", disse à Lusa outro funcionário da loja, situado na Rua Dom Antão de Almada, acrescentando que a maioria dos clientes são idosos e pais com filhos pequenos.
Sandra adiantou que a loja tem clientes fiéis, como um senhor de 98 anos que todos os dias termina o passeio a dar comida aos pombos para "lhes matar a fome" e "não se importa nada que a polícia vá ter com ele".
Luís Esteves, empregado de uma ervanária na Praça da Figueira, contou que antigamente se viam muitas crianças a alimentar os pássaros, mas actualmente já são poucos, cabendo agora essa tarefa "às pessoas de idade".
Questionado pela Lusa se essa alteração de hábitos se poderia dever ao medo da gripe das aves, Luís Esteves afirmou que não, atribuindo a mudança à proibição de alimentar os pombos e ao receio das pessoas de serem multadas.
Esta opinião é partilhada pelos funcionários da Casa do Bacalhau, que também vende milho devido à procura das pessoas que passeavam pela praça e gostavam de alimentar as aves.
No entanto, a procura tem vindo a diminuir, disse à lusa um funcionário do estabelecimento, que também atribui esta quebra à legislação.
Desde 2002, a autarquia tem vindo a sensibilizar e informar os lisboetas sobre os problemas que os pombos podem causar, esclarecendo também que estes animais são auto-suficientes quanto à sua alimentação.
Uma fonte da autarquia disse à Lusa que tem vindo a aumentar o número de queixas apresentadas por munícipes devidas aos incómodos causados pelas aves e à constatação da destruição do património edificado, dos monumentos e dos pavimentos.
Para controlar o número de pombos na cidade, A Divisão de Higiene e Controlo Sanitário (DHCS) tem várias medidas, como a utilização de um contraceptivo oral (pílula) que diminui a sua capacidade reprodutiva.
Paralelamente, a autarquia tem circuitos de capturas, efectuadas aos domingos de manhã e envia alguns pombos capturados para o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária para pesquisa de agentes patogénicos, incluindo vírus da gripe das aves.
Está ainda em articulação com a Direcção Geral de Saúde e a Direcção Geral de Veterinária, no que diz respeito à troca de informação e prevenção da gripe das aves.