Há poucos filmes sobre emigração portuguesa, diz realizador

O realizador José Vieira disse hoje que há poucos filmes sobre a emigração portuguesa em França, realidade que poderá ser alterada em breve com o surgimento de novas histórias feitas pelos filhos dos portugueses.

Agência LUSA /

José Vieira relança sábado em França o DVD do documentário "A Foto Rasgada", datado de 2001 e premiada no Festival de Amiens, em 2002, no Doc Lisboa de 2002 e no festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra.

Em declarações à Agência Lusa, o realizador, natural do concelho de Coimbra e a residir em França, referiu que "em breve apareçam novas experiências sobre esta história", nomeadamente filmes e livros produzidos por filhos de portugueses.

"Este é o momento para os filhos confrontarem os pais", diz José Vieira, autor de um dos poucos filmes sobre a emigração portuguesa para França O documentário trata sobretudo sobre a viagem a "salto" dos emigrantes clandestinos necessária para escapar ao controlo da polícia portuguesa e espanhola durante as ditaduras salazarista e franquista.

O título, "A foto rasgada", era um sistema usado para verificar o sucesso da viagem: uma fotografia era rasgada ao meio, sendo uma metade entregue ao "passador" que conduzia a pessoa até França e a outra guardada pelo emigrante.

Quando este chegava ao destino, enviava a sua metade à família, que se encarregava de pagar o restante do dinheiro acordado ao "passador".

Esta é apenas uma das histórias que José Vieira escutou durante a sua infância no bairro de lata (bidonville) na região de Paris onde chegavam todos os dias portugueses para procurar melhores condições vida, para se refugiarem do regime salazarista ou fugir à guerra colonial.

A sua casa, onde viveu entre os sete e os 12 anos, era um local de passagem porque a sua irmã escrevia francês e ajudava os portugueses, na maioria dos casos homens sozinhos e analfabetos, a preencher papéis.

O frio e a fome nos Pirinéus, o cansaço, as carrinhas apinhadas de pessoas, a dureza dos "passadores", o abandono e a morte dos mais fracos e as semanas que chegava a durar o percurso são relatadas à mesa da cozinha.

No DVD que lança agora em França, e que terá também uma edição em Portugal, além do documentário "A Foto Rasgada" junta as várias entrevistas a pessoas que não pode usar no documentário e que contribuíram para o seu trabalho.

O DVD, a que chamou "Gente do Salto", pretende ser um documento com memórias de portugueses que fugiram para França nos anos 60 que, no seu entender, França e Portugal continuam a ignorar.

Em França, onde tem participado em debates nas associações portuguesas, tem recebido aplausos por quem se revê no filme e agradecimentos de jovens da segunda e terceira geração que descobrem agora a história omitida pelos seus pais e avós.

O DVD agora lançado tem ainda uma funcionalidade multimédia onde pode ainda ser consultada documentação, como artigos de jornais francesas da época, cartas, filmes e documentos recolhidos nestes anos pelo autor.

Actualmente, o realizador encontra-se a ultimar outro documentário, igualmente sobre a emigração portuguesa, que deverá ser apresentado em Janeiro em França.

"Le pays où l`on revient jamais" [O país onde não se regressa] vai incidir sobre os portugueses que partiram com a ideia de regressar ` sua terra e não voltam mais, até porque tudo mudou entretanto.

"As pessoas que regressaram tinham desejo de voltar mas não voltaram onde queriam porque queriam a terra da sua juventude", salientou José Vieira, que procurou filmar este dilema de querer partir e ao mesmo tempo de desejar ficar em França.

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