Há "racismo subtil" em Portugal, diz o presidente da Casa Angola em Coimbra
O presidente da Casa de Angola em Coimbra considerou hoje que em Portugal existe "um racismo subtil", que se evidencia em situações de maior proximidade entre africanos e portugueses.
"Em termos teóricos somos bem recebidos, bebemos uns copos uns com os outros. Mas, em termos práticos, há falta de sensibilidade e intolerância", afirmou Bento Monteiro.
O presidente desta organização não governamental para o desenvolvimento (ONGD) falava à agência Lusa à margem do primeiro congresso "A Diáspora Africana, o Direito e a Imigração em Portugal", que decorreu hoje no auditório do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados.
"Enquanto um estrangeiro, que é diferente, não lhe tocar naquilo que lhe é familiar, o português não é racista. Mas quando um pai vê uma filha a namorar com um africano, não gosta", exemplificou.
Na sua perspectiva, "em muitos portugueses existem ainda ideias do colonialismo, com a menorização do africano".
"Ver um africano na Universidade é, para muitos portugueses, um escândalo. Em Coimbra, quando um estrangeiro chega para arranjar um quarto tem problemas", sustentou o presidente da ONGD, fundada há dez anos na cidade.
Por outro lado, Bento Monteiro criticou a "falta de retaguarda" para os imigrantes proporcionada pelos Estados de origem.
"As embaixadas nada fazem para os acolher e integrar, só cumprem a missão relacionada com os passaportes", sustentou o jurista.
Num apelo ao Estado português, Bento Monteiro reclamou mais apoios para as associações de imigrantes, como a Casa de Angola em Coimbra, que, segundo indicou, auxilia qualquer cidadão estrangeiro, independentemente do país de origem, e presta também suporte aos portugueses que desejem viajar para esta nação africana.
Ao intervir na sessão de abertura do congresso, o presidente do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados, Daniel Andrade, afirmou que os cidadãos residentes em Portugal, sendo ou não naturais, "têm o direito constitucional à cidadania" e defendeu ainda que os estrangeiros devem ter "um direito acrescido à informação".
Por seu turno, o adjunto do governador civil de Coimbra, Paulo Valério, preconizou, na mesma sessão, o combate à imigração ilegal, mas também a criação de "canais legais de imigração, que acolham os imigrantes como parte integrante da marcha pelo desenvolvimento".
"É urgente um esforço de fiscalização da imigração ilegal para que se combata o recrutamento ilegal de mão-de-obra e o tráfico de seres humanos. Mas não é menos urgente que Portugal, enquanto país de acolhimento, garanta aos imigrantes condições de existência dignas e de protecção social. (Ó) As condições em que alguns imigrantes ainda vivem no nosso país devem fazer-nos corar de vergonha", sustentou, ao intervir em representação do governador civil, Henrique Fernandes.
O congresso, que se realizou no âmbito das comemorações do Dia de África, foi organizado pela Casa de Angola em Coimbra, em parceria com a Casa Lusófona, registando, durante a manhã, uma assistência muito reduzida.