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"Há uns anos eu não gostava de mim". Gabriel mudou de sexo para passar a gostar

"Há uns anos eu não gostava de mim". Gabriel mudou de sexo para passar a gostar

"Agora sou eu." Um homem? "Um homem trans", responde de forma assertiva. Gabriel, 29 anos. O processo de mudança de sexo começou há dez. O nome atribuído à nascença não se vai conhecer nesta reportagem, porque não traz boas memórias. "Não era eu", explica à RTP Antena 1. Este é um retrato dos desafios da mudança de sexo - antes, durante e depois - que publicamos no Dia Internacional da Visibilidade Trans.

"Mesmo desde pequeno, acho que nunca me senti confortável", conta Gabriel, mas não sabe precisar o momento em que entendeu o que se passava. Voltamos atrás no tempo, até à infância que a memória permite lembrar. "Eu gostava de brincar com Nenucos, lembro-me disso, e lembro-me de dizer à minha prima que eu era o pai, ela podia ser a mãe à vontade, mas eu tinha que ser o pai" nas brincadeiras. A avó, com quem passou a infância, soube cedo que havia algo que não batia certo e, revela Gabriel, "sabia mais coisas do que se calhar eu próprio", mas nunca lho disse, só já adulto soube das preocupações em segunda mão, já ela tinha falecido.


Um dos primeiros sinais dessa diferença? "Comecei a perceber que não gostava de homens, gostava de mulheres", mas não era só isso: "o corpo não estava a bater certo com o resto". E agora? "Agora sou eu." Um homem? "Um homem trans".

As mudanças que a puberdade trouxe fizeram Gabriel usar roupa larga, esconder o corpo de rapariga, não ir à piscina ou à praia e, a ter de ir, manter sempre a t-shirt vestida.

Andava de cabeça para baixo nos corredores da escola. Nas aulas de Educação Física, vivia o desconforto dos balneários. Não se sentia bem em nenhum grupo, "nem no masculino nem no feminino, e eu próprio não saber o que é que se passava comigo acabava por [me fazer] andar mais sozinho". Ajudavam "as auxiliares da escola", companhia improvável mas necessária.

Gabriel não se assumiu como homem até chegar à universidade, mas muito antes disso já era alvo de bullying por ser diferente: "batiam-me", lamenta, "acho que não diziam nada, só me batiam". Nascido, criado e ainda a viver numa vila com pouco mais de duas mil pessoas, ainda hoje se cruza com os autores daquela violência.

O sentimento de não pertencer deu lugar à clareza quando se cruzou com um vídeo a explicar o processo de mudança de sexo: "era um vídeo de alguém que tinha feito [a transição] e de repente é como se fizesse um clique".

"Nós agora temos muito mais acesso à informação. Enquanto crianças, e até mesmo no secundário, nunca tínhamos ouvido falar de pessoas trans, pelo menos para mim isso não era uma realidade, não sabia sequer que era uma possibilidade, que existia. Mesmo nas aulas de educação sexual não é transmitido". Gabriel achava que só não gostava dele próprio. Encontrou conforto em perceber que, afinal, talvez fosse só um homem num corpo de mulher, e isso dava para resolver.

“Quem me dera ter sabido da existência de pessoas mais trans mais cedo, talvez não houvesse uma parte tão grande da minha vida, infância e adolescência, que eu quisesse apagar por sentir que não fui eu a vivê-la”, relata que se sente como “se não tivesse tido infância”, com “muitos momentos de solidão e tristeza”.

A transição começa em 2016. Análises, exames, consultas - com endocrinologista, psiquiatra e psicólogo, no Serviço Nacional de Saúde. Recorda que no gabinete médico o chamavam para as primeiras consultas pelos apelidos, não pelo primeiro nome. "Eu achei aquilo incrível", diz, porque "pode ser embaraçoso" chamar pelo nome legal alguém que já não se revê nele: "tu estás ali com 'ar' de rapaz e de repente chamam-te [pelo nome legal] e tu ficas... 'sim, sou eu'...". Conta que os candidatos à mudança de sexo são "quase obrigados a ter uma vida social antes da mudança efetiva do nome no cartão do cidadão já com o novo nome", para testar "como nos sentimos".
E quando se começam a sentir as diferenças físicas? "É muito interessante porque, apesar de ser gradual, há coisas que acontecem muito rápido" como a mudança de voz: "parece que estamos na puberdade, a voz começa a falhar, começam a vir aqueles agudos esquisitos". Caso diferente é a barba, que "demora muito mais tempo". "A gordura corporal também muda" lentamente, explica, e a mastectomia traz "o sentimento de liberdade". Gabriel recorda "a primeira vez" que foi à piscina, a "sensação de entrar na água sem... sem t-shirt", depois da remoção cirúrgica das mamas. É um de muitos momentos marcantes no processo de transição, que durou à volta de quatro anos. Outro é o dia em que muda oficialmente de nome. "Lembro-me perfeitamente de ir fazer o cartão do cidadão, no caso, mudar o registo de nascimento, porque é emotivo, acaba por ser emotivo" e "é um alívio estar a bater certo", finalmente.

Escreveu uma lista de nomes que gostava para si, mas acabou por não ficar com nenhum deles. A mãe deu-lhe o nome à nascença e tinha o direito de o escolher novamente, assim foi: Gabriel. Gabriel Augusto, o segundo nome é o do bisavô, o objetivo foi "homenagear" a avó que lhe amparou o sofrimento em criança.
"Neste momento eu gosto de mim, há uns anos não gostava"
Pelo meio das muitas mudanças, o desafio da intimidade, que ainda hoje se mantém. "Não sabes o que a pessoa vai achar, nunca esteve com ninguém assim (...) acho que 99% das pessoas não estão dispostas sequer a estar com uma pessoa trans". Então, como fica a autoestima? "Eu prefiro estar sozinho e olhar ao espelho e gostar do que estou a ver do que estar com alguém que não aceita. Ninguém é obrigado a gostar. Mas eu tenho de gostar de mim e neste momento eu gosto de mim. Há uns anos não gostava".

Ainda foge de algumas conversas desconfortáveis ou da curiosidade alheia, que às vezes é mal-intencionada, acredita. No trabalho, remoto, ninguém sabe que Gabriel já foi mulher. Evita abrir demasiado o jogo, a conversa com a Antena 1 é uma exceção, porque não deixou de ser introvertido, e "há coisas que não se perguntam".

"Por incrível que pareça acho que as pessoas mais velhas, da geração dos meus avós, foram mais recetivas que as da minha", lamenta. Pelo caminho ficaram alguns "amigos" - quem coloca as aspas é o próprio. "Sinto isso em conversas, coisas do género, 'eu percebo que tu és trans, mas o que me interessa é o meu bem-estar e se o meu bem-estar implica votar no Chega, o que puder acontecer contigo não interessa'".
"Ninguém acorda num dia e pensa hoje apetece-me mesmo ser homem"

Gabriel não pensou duas vezes depois de tomada a decisão e acredita que é assim para a maioria das pessoas. Rejeita que a ideia seja confusa, fruto de pressão ou de modas.

"Eu acho que isso é desinformação, porque o processo de transição não é fácil a nenhum nível", explica, "nem pessoal, nem social, e depois muito menos a parte das cirurgias. Ninguém acorda num belo dia, ou num dia chuvoso, enfim, ninguém acorda e pensa 'hoje apetece-me mesmo ser homem ou ser mulher!' e ir fazer uma carrada de cirurgias, ir tomar uma data de hormonas, e passar por todo um processo socialmente constrangedor, de 'olá, já não sou fulano tal e agora sou fulano tal'".

É nesta parte da entrevista que Gabriel se abre mais, porque tem mais a dizer: "ninguém nas suas plenas faculdades vai acordar num dia e fazer isto sem ter a certeza que é o que quer... e as pessoas dizem 'as crianças não sabem o que é que querem, não têm maturidade para saber'. Será que não? Será mesmo que não têm? Será que não são capazes de se olhar ao espelho e pensar 'há uma coisa em mim que não está bem'?"
Conversamos sobre as propostas de alteração à lei sobre identidade de género, de que Gabriel não chegou a beneficiar, porque começou o processo antes de 2018. Acompanha com preocupação a conversa em torno do tema, dentro ou fora do Parlamento.

"Deixem só a pessoa ser feliz, seja ela o que for" - dirige o conselho a todos. Sobre se o novo discurso pode fazer alguém não se assumir com medo da reprovação da sociedade, Gabriel diz esperar que não, porque "pessoas que não conseguem fazer a transição, infelizmente, são pessoas que podem não continuar aqui", quando a dor ganha.

"Porque todos os dias tu vives uma vida que não é a tua, e ninguém quer estar a viver uma vida que não é a nossa, não é? É um sentimento de 'o que é que eu estou aqui a fazer?' e é uma dor muito grande. E é aquela dor que não passa com Ben-u-ron".