Habitantes de aldeias da Guarda não comem verduras nem vão à horta no Domingo de Ramos

Guarda, 05 Abr (Lusa) - Em muitas aldeias do distrito da Guarda ainda é cumprida a tradição quaresmal de Domingo de Ramos, que afasta verduras e saladas das refeições e impede idas à horta, disse hoje à Lusa fonte da Diocese.

© 2009 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Segundo Eugénio Cunha Sério, Cónego Penitenciário da Diocese da Guarda, no Domingo de Ramos "não se comem verduras nem se apanham e as pessoas não vão à horta".

O costume antigo ainda é seguido "por muitos católicos", explicando o sacerdote que é justificado "pela razão de que o Senhor [Jesus Cristo] se escondeu detrás dos arbustos, no Horto das Oliveiras".

"É um costume ainda praticado nas aldeias da região", assegurou, referindo que nesse dia "as sopas são sem verduras, comem-se sopas de grão e outros pratos sem saladas".

A tradição é seguida pelos habitantes de Vila Cova-à-Coelheira, no concelho de Seia, como confirmou hoje à Lusa a moradora Maria Gonçalves, 49 anos.

"Muita gente da aldeia ainda o faz e eu também. A minha mãe ensinou-me e pratico-o e hei-de deixar esse costume para os vindouros", assegurou.

Salientou que no próximo domingo "comem-se outros pratos onde não entra verdura, não se faz sopa de legumes, opto antes pela canja ou pelo grão".

Também afiançou que naquele dia "nem à horta" vai buscar alimento para os animais domésticos.

"Apanho a erva e a hortaliça na véspera e no Domingo de Ramos não vou à horta", assegurou, garantindo que cumpre uma tradição que passou de geração para geração.

No distrito são também cumpridas as tradições quaresmais dos cânticos da Encomendação das Almas (cânticos entoados durante a noite) e dos Martírios.

Sobre os Martírios, Eugénio Cunha Sério recordou que "durante os trabalhos rurais canta-se a narrativa, às vezes dramatizada, da Paixão do Senhor".

"Lá em cima no altar-mor/está um craveiro na cruz/as folhinhas que ele deita/são o sangue de Jesus. Sinto chorar no Calvário/Madanela [Madalena] quem será?/crucificamJesus/são ais que a Senhora dá", são versos entoados nesta quadra do ano, segundo o sacerdote.

Para incentivar a preservação da Encomendação das Almas, uma manifestação popular de carácter religioso em que um grupo de pessoas reza e canta pelas almas dos mortos, a Câmara da Guarda, organiza sábado um encontro de grupos de cantares do concelho, na freguesia de Faia, a partir das 21:30.

Participam o Grupo de Encomendação das Almas da Faia, Grupo Vozes da Quinta (Quinta de Gonçalo Martins), Grupo de Encomendação das Almas do Marmeleiro, Grupo de Encomendação das Almas da Castanheira, Grupo de Cantares "Ontem, Hoje e Amanhã" de Maçainhas e Grupo de Cantares de S. Miguel "A Mensagem".

O Enterro do Senhor, a Procissão dos Passos e as Alvíssaras, são outras das tradições quaresmais que ainda permanecem na região.

Nas localidades de Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo) e Almeida, "uma só cerimónia, que demora quatro horas, junta os Passos e o Enterro do Senhor" recorda o cónego Penitenciário da Diocese da Guarda.

Este costume, ou esta forma de celebrar, "também aparece noutros domingos da Quaresma", por exemplo em Carvalhal Meão (Guarda) e Atalaia (Pinhel), acrescenta.

No concelho da Guarda, em Aldeia Nova, Freguesia de Ramela, realiza-se Sábado de Ramos, a festa de Nossa Senhora da Teixeira que é única na região.

A romaria que acontece em plena Quaresma integra uma procissão entre a aldeia e a capela da Senhora da Teixeira, situada nas proximidades, a celebração da missa e uma procissão, com o andor da santa, em redor do templo religioso.

Eugénio da Cunha Sério refere que estas manifestações de religiosidade popular "revelam que as pessoas continuam a ter muita fé", observando que "chegam a vir pessoas de França para participar as actividades".

Tópicos
PUB