Herdeiros de mulher que estava morta há nove anos em casa continuam sem saber dos bens
Os herdeiros da idosa que esteve morta durante nove anos na sua habitação, na Rinchoa, Sintra, continuam sem apurar onde se encontram os bens que estavam na casa antes da venda em hasta pública.
Uma idosa, que vivia sozinha em Rio de Mouro, Sintra, esteve nove anos morta em casa e, apesar dos alertas de uma vizinha, a PSP só encontrou o corpo a 8 de fevereiro de 2011 no interior do apartamento, depois de o imóvel ter sido vendido num leilão pelas Finanças.
Um ano após a retirada do corpo da idosa de dentro da habitação, um dos herdeiros disse à agência Lusa que os familiares aguardam a conclusão de um processo judicial onde tentam anular a venda em hasta pública e continuam sem saber onde se encontram os bens que estavam no imóvel. .
"Se o andar foi vendido pelas finanças por trinta mil euros e se a dívida era de mil euros eu pergunto onde é que está o resto do dinheiro. Não me vou calar, até posso não receber nada, mas já desembolsei para a advogada e para o funeral", disse o herdeiro da idosa à agência Lusa.
Segundo Joaquim Martinho, irmão da falecida, os quatro herdeiros ainda não obtiveram "qualquer resposta das finanças", nem da Segurança Social para o pagamento das despesas de funeral.
Joaquim Martinho adiantou que nos últimos anos da sua vida a idosa se afastou da família, nunca procurando contacto e foi esse o motivo para o afastamento.
"As pessoas censuram o facto de querermos reaver os bens, mas o que é certo é que se há herdeiros as coisas não pertencem às finanças. As pessoas dizem muita coisa, mas não sabem que ela é que se manteve sempre incomunicável. Não foi só comigo. Como é que íamos forçar uma coisa que ela não queria", justificou.
Na praceta das Amoreiras, na Rinchoa, Rio de Mouro, os vizinhos ainda recordam o episódio da idosa que "raramente saia à rua". Aida Martins, 85 anos, adiantou à agência Lusa ter participado o desaparecimento da idosa várias vezes, a primeira em 2002. Durante anos foi à porta da idosa para tentar detetar "se havia maus cheiros" que denunciassem a morte da vizinha.
"Passou muito tempo com ela morta dentro do apartamento. Eu no fundo sabia que ela lá estava. Fui à polícia muitas vezes e eles foram lá à porta, mas como não cheirava mal, porque as janelas estavam abertas, nunca entraram no apartamento", disse.
O caso deixou marcas nesta idosa que agora tenta descobrir casos de solidão numa rotina diária que passa por olhar as janelas dos vizinhos idosos, para ver se "há sinais de vida".
"No prédio em frente mora um casal de idosos e estou sempre a espreitar a ver se abrem as janelas para ver se estão bem. E aqui no prédio mora uma idosa com cem anos que também vamos de vez em quando falar com ela para saber se está bem", disse.
Segundo Aida Martins, o apartamento adquirido em hasta pública está habitado por um casal.
A agência Lusa tentou falar com os proprietários do imóvel, que se mostraram incontactáveis.