Historiador defende que as invasões francesas aceleraram a independência do Brasil
O bloqueio de Napoleão Bonaparte à Grã-Bretanha, decretado a 21 de Novembro de 1806, "afectou profundamente Portugal", isolando-o da Europa, e acelerou a independência do Brasil, disse hoje à Lusa Jorge Martins Ribeiro, da Universidade do Porto.
As consequências "profundas" das invasões francesas na História de Portugal vão ser abordadas por historiadores portugueses de renome, no Auditório do Museu Nacional de Soares dos Reis, terça- feira, data em que se completam duzentos anos do bloqueio ordenado por Napoleão Especialistas nacionais naquele período histórico vão fazer um ponto da situação dos trabalhos de investigação sobre aquele conturbado período da história de Portugal.
Além da Universidade do Porto, organizadora do evento, estarão presentes investigadores das universidades de Coimbra, Madeira e Lisboa, assim como Abel Rodrigues, do Arquivo Distrital de Braga, e o general Carlos Azeredo, que vai dissertar sobre "O Reino de Portugal e o Bloqueio Napoleónico".
A iniciativa ocorre no dia em que se cumprem 200 anos da assinatura por Napoleão, em Berlim, do decreto que declarava as ilhas britânicas em estado de bloqueio e proibia as trocas comerciais e de correspondência com aquele país.
"Este acto, que viria a afectar profundamente Portugal e a sua história, ao isolar o país do resto da Europa, está na origem da Guerra Peninsular, que causou as três invasões francesas em território português, em 1807, 1808 e 1810", disse Jorge Martins Ribeiro.
Aquele especialista considera que o estudo das circunstâncias que envolvem a Guerra Peninsular é de "primordial importância" pela série de consequências que desencadeou, conduzindo à derrota da França, ao aprofundamento da decadência de Portugal e à consolidação da hegemonia inglesa na Europa e no mundo.
Ao eliminar a monarquia de Carlos IV de Bourbon na Europa, Napoleão abriu as portas que conduziram à independência da América espanhola (que teve importante apoio da Grã-Bretanha).
O mesmo ocorreu com a saída de D. João VI para o Brasil, que viria a criar condições para a independência daquele país, cujos portos, até então, apenas podiam receber navios nacionais e comerciar com a metrópole, como acontecia com as colónias de outros países.
O primeiro acto de D. João VI (então ainda Príncipe-Regente) ao chegar ao Brasil foi assinar o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, oferecendo aos britânicos, com tarifas alfandegárias privilegiadas, um mercado em três continentes, o que permitiu a hegemonia britânica nas relações comerciais entre ambos os países.
Por outro lado, a permanência da corte portuguesa no Brasil (1807-1821) agravou a crise institucional nacional e fortaleceu as ideias liberais, conduzindo à Revolução do Porto (1820) e forçando o regresso do rei a Portugal, em 1821.
A subsequente tentativa de recolonização do Brasil acabou por levar, em 1822, à independência deste país, onde entretanto tinha florescido uma burguesia alimentada pelo comércio internacional.
Enquanto as potências europeias continuaram a desenvolver o seu comércio e indústria, Portugal, recém-saído das provações das invasões francesas e debilitado pela perda do Brasil, viria pouco depois a mergulhar numa longa guerra civil (1828-1834), atrasando significativamente o seu desenvolvimento face às restantes nações europeias.
Na origem desta guerra está a crise de sucessão ao trono que se seguiu à morte de D. João VI, também ela uma sequela, embora indirecta, do Decreto de Berlim assinado por Napoleão Bonaparte a 21 de Novembro de 1806, que abriu caminho às Invasões Francesas.