Homem de 68 anos é o último guardião da aldeia de Cabrum
** Maria Cristina Marques (texto) e Paulo Novais (fotos), da Agência Lusa **
Viseu, 19 Abr (Lusa) - Manuel Pontes tem 68 anos e há quase quatro que é o único habitante de Cabrum - umas das povoações da freguesia de Calde, no concelho de Viseu - onde só chega quem conhece bem o local.
Depois de uma primeira placa a indicar o caminho para Cabrum, os visitantes ficam por sua conta, adivinhando caminho, primeiro seguindo uma estrada florestal e depois apanhando uma das picadas existentes.
Desce-se o vale e cerca de dois quilómetros depois começa a avistar-se um pequeno aglomerado de casas, onde desponta uma capela.
Ao todo, a povoação tem 18 pequenas moradias, algumas já em ruínas, mas só uma é habitada.
A antena parabólica identifica a casa de Manuel Pontes, que aos poucos viu os outros habitantes de Cabrum irem partindo.
"Uns emigraram, outros foram morrendo e o meu último colega foi para um lar", contou à Agência Lusa.
Manuel Pontes garante que já se habituou a morar sozinho e não tem qualquer receio, nem sequer dos ladrões.
"Estive uns anos no Ultramar e sei-me defender", justificou.
Teme apenas "ser apanhado por uma trombose e nem sequer ter tempo de pedir ajuda através do telefone fixo ou do telemóvel".
De resto, vive despreocupado entre as belíssimas paisagens de uma aldeia onde corre uma ribeira e onde se ouve apenas um cão a ladrar.
O cão que tem junto a um barracão e que, além de lhe fazer companhia, "dá sinal sempre que alguém se aproxima".
As visitas são raras. "De vez em quando vem cá o meu filho, um solteirão de 40 anos, que está emigrado na Suíça", conta.
"Quem cá vem mais vezes é o presidente da Junta de Calde", com quem também mantém um contacto quase diário através do telemóvel.
A chegada da equipa de reportagem da Lusa permitiu-lhe "desenferrujar a língua". A vontade de comunicar é tal que, durante horas, apenas se ouve a voz forte de um homem que mostra saber tudo o que se passa no mundo.
"Vivo num buraco, mas tenho duas televisões em casa. Vejo todos os dias os telejornais", referiu.
"Também tenho luz, água e máquina de lavar roupa. Sou eu que trato das minhas vestimentas", acrescentou.
Durante o dia entretém-se a tratar das suas cabras, para além de "ir semeando alguns miminhos".
"Tenho sempre o que fazer. Também sou eu que cozinho", evidenciou. A batata com bacalhau e grão cozido é o seu prato preferido, embora "saiba fazer de tudo".
Para ocupar o resto do tempo, dá os seus passeios a pé. Conhece todos os atalhos até Calde (a cerca de três quilómetros de Cabrum), onde vai com frequência.
"Vou lá, a pé, pelo menos todos os domingos, para ir à missa. Tenho a chave para ir à Capela daqui de Cabrum, mas não é a mesma coisa", alegou.
A pé vai ainda, com regularidade, até à aldeia de Água D`Alte, freguesia de Moledo, no vizinho concelho de Castro Daire.
Até lá, faz quase quatro quilómetros para visitar a irmã e para fazer umas compras na mercearia. No final do dia regressa, carregado com um saco que traz, o caminho todo, pendurado na enxada que coloca ao ombro.
Manuel Pontes está viúvo há 16 anos e, apesar de viver sozinho, não pondera arranjar companhia.
"Hoje em dia as mulheres só querem dinheiro e não quero ser enganado", justificou.
O reformado contou ainda que não bebe álcool há mais de 15 anos e nunca precisou de qualquer medicação.
"Só bebo chás. Agora ando a tomar um para a tensão alta", rematou.
O presidente da Junta de Freguesia de Calde, Herculano Gonçalves, é quem mais visita Manuel Pontes.
"Ele é muito reivindicativo e de vez em quando lá me pede para compor os acessos até Cabrum", frisou.
Os acessos à povoação são difíceis, "mas não se pode estar a investir num sítio que tem apenas um habitante, quando há tantas outras prioridades".
No entanto, "se surgir um projecto de recuperação para fins turísticos, tanto a Junta de Freguesia de Calde, como a autarquia de Viseu, teriam de dar o seu contributo".
Cabrum é a mais pequena povoação da freguesia de Calde, à qual pertencem ainda as aldeias de Várzea, Calde, Póvoa, Paraduça, Almargem e Vilar do Monte e que, para já, vai tendo em Manuel Pontes o seu último guardião.