Hospital dee Setúbal averigua caso de menino que teve duas altas antes de ser operado
O director clínico do Hospital S.Bernardo anunciou hoje que vai propor uma "averiguação" ao caso de um menino que teve duas altas naquele hospital e que acabou por ser operado em Almada a um hematoma na cabeça.
"Vou propor ao Conselho de Administração a realização de um processo de averiguação interna, para avaliar se houve má prática médica", disse à Lusa Manuel Carvalho, instado a pronunciar-se sobre o caso de um menino que foi operado de urgência no Hospital Garcia de Orta, depois de ter tido alta, por duas vezes, na urgência pediátrica do Hospital São Bernardo, em Setúbal.
Tudo começou sexta-feira, 11 de Novembro, quando a criança, de 7 anos, foi conduzida ao Hospital São Bernardo (HSB), cerca das 12:50, com um hematoma na cabeça devido a uma queda na escola.
O menino teve alta cerca das 14:00, depois de efectuar uma radiografia que não revelou lesões internas, tendo os pais recebido indicações para regressarem de imediato àquela unidade hospitalar caso a criança apresentasse cefaleias (dores de cabeça), náuseas, tonturas ou vómitos.
No mesma sexta-feira, cerca das 21:00, os pais dirigiram-se de novo ao hospital, uma vez que a criança se queixava de fortes dores de cabeça e aparentava estar mais sonolenta do que o habitual.
à entrada do serviço de urgência pediátrica do HSB, o menino teve um episódio de vómitos e acabou por ficar internado até sábado de manhã, altura em que voltou a ter alta médica, mas uma vez mais com indicações aos pais para regressarem de novo ao hospital caso se verificasse um agravamento do seu estado de saúde.
Preocupados com o facto de a criança continuar muito sonolenta e a queixar-se de dores de cabeça, os pais conseguiram que lhes fosse prescrita a realização de uma Tomografia Axial Computorizada (TAC) para as 8:30 de domingo (dia 13 de Novembro), numa clínica privada de Setúbal.
Duas horas depois do exame, um responsável da clínica privada pediu aos pais da criança que procedessem ao levantamento da TAC e que se dirigissem, com a máxima urgência, ao Hospital Garcia de Horta, em Almada.
Os pais foram então informados de que o filho tinha um "hematoma epidural agudo" e que teria de ser submetido a uma intervenção cirúrgica de urgência, o que aconteceu cerca das 14:00 desse mesmo dia.
O menino foi operado com êxito e está a recuperar normalmente, mas os pais não se conformam com o facto de os médicos do Hospital São Bernardo não terem prescrito o exame complementar (TAC) que acabaram por conseguir fazer numa clínica privada e que permitiu detectar, a tempo, a existência de um derrame que poderia ter tido consequências trágicas.
O director do serviço de pediatria do HSB, Luís Caturra, considera no entanto que não houve negligência médica e alega que o pequeno não apresentava um conjunto de sintomas característicos nestas situações.
"Trata-se de um caso com uma evolução atípica", disse à Lusa Luís Caturra, assegurando que o facto de a criança apresentar sinais de sonolência e de ter tido vómitos, quando foi levado pela segunda vez no mesmo dia à urgência pediátrica, "não era motivo suficiente para a prescrição de uma TAC".
Por outro lado, acrescentou Luís Caturra, "durante o internamento, de sexta-feira para sábado, a criança apresentava-se consciente, comunicativa, +hemodinâmicamente estável+ e a sonolência que apresentava à noite era própria daquela hora".
Luís Caturra afirmou ainda que os médicos do HSB teriam prescrito a realização de uma TAC se os pais se tivessem deslocado uma terceira vez ao hospital São Bernardo e tivessem informado que a criança continuava sonolenta e com dores de cabeça.
"Muito provavelmente, se os pais tivessem voltado ao hospital São Bernardo com a criança teríamos mandado fazer a TAC", disse Luís Caturra, salientando que "muitas vezes os médicos mandam fazer TAC`s por situações que aparentam ser muito mais graves e que acabam por não revelar nenhuma lesão".
O pai da criança, Paulo Morais, lamenta que tivesse sido necessário recorrer a um exame complementar a título particular para detectar um problema que quase lhe poderia ter custado a vida de um dos dois filhos, mas não tenciona avançar com nenhum processo judicial contra o Hospital São Bernardo.