Hospital do Barreiro cobra 200 mil euros por doente em coma vegetativo há seis anos
O Hospital do Barreiro moveu uma providência cautelar para retirar uma doente em coma vegetativo, internada há seis anos, das suas instalações, cobrando pelos 2.168 dias de internamento mais de 200 mil euros, disse hoje à Lusa um familiar.
No documento a que a Lusa teve acesso, o Hospital Nossa Senhora do Rosário (HNSR), que está em gestão corrente desde Janeiro de 2006, refere que a doente em causa sofre de encefalotapia anóxica, está num estado "estável mas irreversível", e que apesar de necessitar de cuidados de terceiros "permanentes" os médicos nada poderão fazer "em favor da sua evolução clínica".
O HNSR defende que "necessita da cama ocupada para hospitalizar outros doentes".
A providência cautelar, que foi recebida pela família no dia 15 de Maio, tinha 10 dias correntes para ser contestada e refere que "se não for colocado de imediato termo à situação, a dívida ascende a uma proporção que aumenta a impossibilidade de futura liquidação e coloca em causa gestão efectuada pelo hospital".
António Casanova, marido da doente Helena Casanova, garantiu à Lusa que apenas manteve a mulher no hospital pois não existia nenhum outro local com condições para a receber.
"Tenho que trabalhar para pagar as minhas dívidas pois há seis anos fiquei sozinho com a minha filha. O valor que o hospital me cobra não ganho eu em 20 anos de trabalho", referiu o engenheiro mecânico de 54 anos.
O hospital pede contas pelos 2.168 dias de internamento de Helena Casanova, cobrando 200.232,88 euros, tendo em conta a tabela que entrou em vigor em Agosto de 2006.
O marido explicou que o advogado vai contestar a providência cautelar e apela às várias entidades em Portugal para o ajudarem a resolver esta situação.
"Esperamos por ajuda de qualquer entidade em Portugal, porque eu só fiz pela minha esposa aquilo que ela teria feito por mim", disse.
António Casanova disse que está disposto a mudar a mulher do hospital para um outro local, mas para tal precisa que exista um local com as condições humanas e matérias capazes para responder às necessidades da sua mulher.
"Concordo que o hospital não é o local ideal para a minha esposa estar, mas não tenho outras opções. Quando soubemos da alta falamos com a Santa Casa da Misericórdia mais foi-nos dito pelo provedor que não existiam condições para a receber", afirmou.
O marido criticou ainda os responsáveis do hospital por, na sua opinião, "terem feito muita pressão" para retirarem Helena Casanova do local e por terem recusado o seu pedido de apoio psicológico para a filha do casal, alegando que "não tinham psicólogo disponível".
"A minha mulher trabalhou uma vida inteira, descontou sempre e devia ser uma doente social. Eu já perdi tudo na vida e não a retiro do hospital enquanto não me garantirem um local com condições", reforçou.
Em Fevereiro de 2006 a família recebeu a primeira conta do hospital, onde era dado um prazo de 30 dias para pagar o valor de 117 mil euros, mas a situação foi adiada pelo advogado, com a conta a aumentar para mais de 200 mil euros até Maio de 2007.
Helena Soares, hoje com 53 anos, sofreu um acidente na piscina municipal do Barreiro no dia 21 de Março de 2001, local onde fazia terapia, tendo-se afogado e entrado em paragem cardio-respiratoria sem se conhecerem os motivos e sendo encontrada a flutuar por um outro utente do espaço.
Na altura, os bombeiros defrontaram-se com várias dificuldades para retirar o corpo para o exterior, pois as saídas estavam fechadas com barras de ferro.
A vítima teve que ser retirada pela recepção, depois de desviadas secretárias e outros equipamentos.
A doente ficou em coma profundo e no início de Maio de 2001 recebeu alta, depois do seu estado ter sido considerado irreversível, com a família a garantir que procurou por um local para a poder receber.
"Procurámos na Cruz Vermelha e na CUF, mas foi nos dito que recebiam casos de internamento mais curto e que em caso de a minha mulher ir para lá teríamos que pagar ao dia", lembra o marido.
A família questionou a Câmara do Barreiro sobre responsabilidades sobre o caso numa reunião do executivo camarário, pois a piscina é um equipamento municipal, mas o presidente na época, Pedro Canário, recusou activar um eventual seguro para suportar o internamento de Helena Casanova.
António Casanova decidiu então mover um processo judicial contra a autarquia para apurar responsabilidades.
A queixa-crime apresentada já foi arquivada, mas o processo cível ainda corre em tribunal, depois de a autarquia do Barreiro ter terminado o inquérito em 2003, dois anos depois do acidente,
A audiência chegou a estar marcada para 2005, mas foi adiada porque o tribunal do Barreiro não podia julgar a autarquia, passando o processo para Almada.
"A piscina fechou cerca de 3 semanas depois do acidente e só reabriu um ano depois, tendo estado em obras. No início de 2007 estivemos perto de chegar a um acordo com a autarquia, pois a Santa Casa ficou de criar condições para receber a minha mulher, mas o acordo não se concretizou", afirmou.
A filha, Mara Casanova, hoje com 26 anos, estudava na Universidade Nova de Lisboa num curso de línguas quando se deu o acidente, tendo deixado a escola para acompanhar a mãe.
"De início ainda tentei estudar mas não conseguia, porque queria estar perto da minha mãe. Durante quatro anos e meio passava das 15:00 às 20:00, que é o horário das visitas, no quarto do hospital", disse à Lusa.
Para além de falar com a mãe na procura de alguns estímulos, Mara Casanova cuida também da higiene pessoal da doente, mesmo depois de ter começado a trabalhar como assistente dentária em Setembro de 2005.
"Falo com ela e procuro estímulos, tendo mesmo conseguido algumas respostas. Penteio a minha mãe, corto o cabelo, lavo-lhe os dentes, trato da sua higiene e até aprendi a fazer algumas massagens", descreveu a jovem, que na altura do acidente tinha 19 anos.
Pai e filha afirmam continuar a passar todos os momentos livres no quarto do hospital onde se encontra Helena Casanova, numa rotina diária a que a família se viu obrigada desde o trágico acidente.
"Esta é uma situação que nem eu nem a minha esposa pedimos, não entendo porque ainda tenho que pagar mais por isto. A minha vida terminou no dia 21 de Março de 2001", concluiu António Casanova.