Hospital S. António realiza transplantes de córnea há 50 anos
Porto, 28 de Novembro (Lusa) - O Hospital Geral de S. António (HGSA), no Porto, que hoje comemora 50 anos do primeiro transplante da córnea e 25 do primeiro renal, é o único que em Portugal que realiza transplantes pancreáticos.
Este hospital "é uma referência na área da transplantação, com um número de transplantações realizadas e resultados ao nível dos alcançados nos melhores centros europeus desta área", sustentou Rui Almeida, director da Comissão Executiva do Conselho de Transplantação do HGSA.
O hospital tem uma lista de espera de 178 doentes para córnea, 600 para rins e 50 para o pâncreas. No que toca ao fígado, há uma "lista activa" constituída por 25 doentes que a qualquer momento podem ser chamados para serem transplantados.
Há outros hospitais portugueses que fazem estes e outros transplantes, mas só o Santo António realiza transplantes pancreáticos, salientou o responsável.
"Há uns anos, em Coimbra, o professor Linhares Furtado foi quem tentou pela primeira vez e fez um, mas o programa não se sedimentou e ficou por aí", historiou Rui Almeida.
O HGSA avançou para este tipo de transplantes há oito anos. "É muito exigente no diz respeito aos dadores. Só os temos até aos 35/40 anos", indicou o médico.
Hoje, o Santo António tem programas para o fígado, córnea, rins e pâncreas, havendo transplantados com mais do que um destes órgãos.
Um transplante pancreático, em média, custa 10 mil euros, dependendo não só da parte cirúrgica mas também do acompanhamento a que depois os doentes estão sujeitos. "O mais caro é o do fígado", salientou Rui Almeida.
A sobrevida é um das questões sensíveis associadas a estas intervenções. Alguns doentes recebem mais do que um fígado porque o anterior deixou de funcionar e, por isso, "têm uma sobrevida cumulativa graças a vários transplantes", exemplificou Rui Almeida.
Rui Almeida, supõe que a intervenção realizada em 1958 de transplante da córnea - há 50 anos - foi também a primeira que se fez em Portugal tendo como objecto aquele órgão.
"O primeiro doador foi um polícia", revelou Rui Almeida, recordando que "não havia na altura legislação sobre a dádiva de tecidos e órgãos".
"Se existisse alguma coisa seria no sentido de não profanar o cadáver", acrescentou o responsável.
O oftalmologista Manuel Lemos tinha então um problema para resolver, disse Rui Almeida. "Falou com o capelão do hospital, este falou com o polícia, que se encontrava em estado terminal, e conseguiu pô-lo a assinar uma folha de papel selado em que declarava que depois de morto permitia que lhe fossem extraídas as córneas".
"O programa de transplantes começou deste forma meio clandestina", referiu ainda Rui Almeida.
O HGSA realizou desde essa altura 3.048 transplantes de córnea. Hoje, eles são feitos de uma "forma organizada e enquadrada na lei que regulamenta a colheita de tecidos e órgãos".
A directora do Gabinete de Coordenação de Colheitas e Transplantação do hospital disse à Lusa que as pessoas que não quiserem dar os seus órgãos podem inscrever-se num "registo nacional do não dador".
Qualquer doente que morra no HGSA é logo referenciado. "Verificamos se não há nenhuma contra-indicação clínica e se ele não estiver inscrito [no registo nacional] avançamos para a colheita dos seus órgãos", afirmou a enfermeira Rosário Caetano Pereira.
"As córneas duram até dez dias pós-colheita e depois vão sendo transplantadas", acrescentou.
Os doentes que têm a doença dos pezinhos (paramiloidose) estão entre os principais candidatos aos transplantes hepáticos, diz Rui Almeida, "porque se descobriu que o seu fígado produz uma proteína anómala" que está por trás dos problemas motores, digestivos e cardíacos que acabam por os matar.
Apurou-se que estes doentes beneficiavam com um transplante de fígado. Rui Almeida explicou porquê: "Se lhes puséssemos um fígado que não produz a tal proteína, eventualmente, pararíamos a evolução da doença, embora não completamente porque não é só o fígado que a produz".
O que esses doentes ganham, no global, "é uma qualidade de vida que não tem nada a ver com a devastadora qualidade de vida anterior", frisou.
O fígado extraído desses doentes, por outro lado, pode representar "25 anos de nova vida num doente com um cancro, com mais de 50 anos, quando ele provavelmente só teria seis meses de vida". Isto porque a produção daquela proteína anómala só começa a ter significado volvidos 25/30 anos.
O Santo António é o único hospital do Norte do país que faz transplantes hepáticos. "Nós e o São João fazemos do rim, sendo que só o Santo António é que faz rim pediátrico, e no pâncreas somos referência para todo o país", frisou Rui Almeida, ele próprio cirurgião e membro das equipas de transplantação.
Este hospital portuense também tem um grande protagonismo no que toca aos transplantes renais. Segundo os seus responsáveis, é "uma das duas melhores unidades nacionais, com um total de 1670 transplantes de rim realizados até este mês".
Um médico começa a realizar transplantes "com autonomia" só por volta dos "40 anos", realça Rui Almeida.