Idosos isolados tornam-se intolerantes e perigosos, diz psiquiatra

Lisboa, 14 set (Lusa) -- O psiquiatra João Barreto considera que os idosos devem manter-se integrados e inseridos no seu meio habitual, pois tornam-se "intolerantes" se ficarem sozinhos.

Lusa /

"É mau isolar idosos e não lhes dar que fazer", disse o fundador da Associação Portuguesa de Gerontologia durante o congresso "Presente no Futuro -- Os Portugueses em 2030", a decorrer hoje e sábado em Lisboa.

"O idoso isolado do seu meio é perigoso, torna-se intolerante", acrescentou o especialista, citando, com manifesto sentido de humor, os exemplos da Cúria Romana ou do antigo soviete supremo da extinta União Soviética como exemplos do que afirmara.

O tema para o debate no encontro organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, no Centro Cultural de Belém, estava sintetizado na pergunta "O envelhecimento torna as sociedades mais resistentes à mudança?"

Disse o psiquiatra que, retirado do seu contexto habitual, um velho pobre pode tornar-se num forreta e um desconfiado num paranóico.

Sobre o tema do debate, disse que um "certo grau de conservadorismo" vai prevalecer na sociedade portuguesa dentro de décadas e referiu, de novo em tom aparentemente irónico, que ele próprio é conservador, pois "os médicos devem conservar a saúde das pessoas".

O que afirmou convictamente é que, com o envelhecimento previsto da sociedade portuguesa, "não haverá velhos a mais mas jovens a menos" e que os idosos fazem o "contrabalanço" com os mais novos e "dessa dialética nasce a ação".

Fátima Barros, economista e professora universitária, outra das convidadas do painel, respondeu à pergunta do debate afirmando que a resistência à mudança existe tanto entre as pessoas de mais idade como nas mais novas, sem fazer diferenciação.

Ocorre, prosseguiu, "quando há ameaças aos direitos adquiridos" em qualquer geração.

Quanto ao processo de envelhecimento, a atual presidente da Autoridade Nacional de Telecomunicações (ANACOM), disse que "ganha-se com a idade" e negou "três mitos" que costumam ser usados para qualificar as pessoas com mais idade: que perdem capacidades, resistem mais à mudança e que têm mais dificuldade em aprender.

João Barreto pegou na deixa e referiu, como exemplo, que colocar jovens a ensinar informática a idosos "tem sido um fracasso", o que atribui à forma diferente como a idade obriga a arrumar o conhecimento.

"O idoso tem que encaixar o novo nas gavetas que ainda existem" na memória, enquanto nos mais novos "entra tudo porque [ainda] há espaço para tudo", considerou.

Garantiu, contudo, que "os idosos são mais diferentes entre si do que os jovens".

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