Incidência da doença leptospirose é dez vezes mais alta nas ilhas dos Açores

A incidência média anual nos Açores da leptospirose (doença contraída por contacto com a urina dos ratos) situava-se, entre 1993 e 2003, nos 11,1 casos por 100 mil habitantes, cerca de dez vezes mais do que no Continente.

Agência LUSA /

A informação foi hoje avançada aos jornalistas por Margarida Collares Pereira, coordenadora de um estudo sobre a doença iniciado em 2004 e apresentado num seminário no âmbito do projecto "Epidemiologia e Controlo da Leptospirose nos Açores".

Este estudo, que decorre até 2007, envolve especialistas dos Açores e continente e conta com apoio das secretarias regionais da Agricultura e Florestas e Assuntos Sociais.

Margarida Collares Pereira indicou que, numa análise efectuada entre 1993 e 2003, foi possível chegar "a valores de incidência média anual para os Açores na ordem dos 11,1 casos por 100 mil habitantes".

"Estes números representam cerca de dez vezes mais da incidência média anual que se obteve no mesmo período para o Continente", salientou.

De acordo com Margarida Collares Pereira, no Continente, entre 1993 e 2003 foi encontrada uma taxa de incidência média de 0,7 casos por 100 mil habitantes.

Segundo disse, a incidência da doença nos Açores, que pode ser mortal, está muito próxima dos valores que são obtidos por outras áreas mais tropicais, onde esta patologia tem um maior impacto, caso dos Barbados, Nova Caledónia ou Haiti.

Margarida Collares Pereiria justificou que as condições de humidade e de temperaturas médias anuais do clima subtropical da região facilitam a sobrevivência das leptospiras.

Recusou, porém, que a incidência da doença tem vindo a aumentar nos Açores, relevando a capacidade que os hospitais de São Miguel e Terceira têm para fazer o rastreio precoce e "mais exaustivo dos casos que são admitidos".

"Tem existido uma maior sensibilização dos clínicos e profissionais de saúde, que decorre da concretização do projecto", sublinhou a especialista, para quem é importante fazer o rastreio precoce, uma vez que as manifestações clínicas podem confundir-se com uma simples gripe.

De acordo com Margarida Collares Pereira, em qualquer hospital da região existem médicos que, numa primeira linha de contacto no serviço de urgência, estão sensibilizados para a doença e canalizam os casos detectados.

"Esta leitura rápida e o tratamento cuidado tem reduzido o número de óbitos", garantiu.

Adiantou que, nos Açores, nos últimos anos, tem havido em média cerca de três a quatro mortes por ano, sendo que cerca de 40 por cento das pessoas que são admitidas no hospital com manifestações clínicas compatíveis com leptospirose associada a uma epidemiologia sugestiva da ocorrência de um contacto virão a ser casos da doença.

O estudo permitiu ainda identificar, através de um questionário, que "cerca de 96 por cento da população açoriana já ouviu falar na expressão leptospirose e na expressão doença dos ratos", mas "não sabe que medidas se deve tomar" para prevenir o contágio.

"Devemos ter o cuidado de divulgar os riscos desta doença, a utilização de vestuário protector, medidas de higiene individual, o que constitui desde logo uma mais valia para a redução da forte transmissão que existe nas ilhas", enfatizou Margarida Collares Pereira.

Quanto ao perfil dos doentes, e tendo em conta um levantamento dos casos identificados nos últimos anos, disse que se tratam de pessoas que, nas suas profissões, desenvolvem actividades que pressupõem o contacto com animais e com a terra, caso de agricultores, tratadores de gado e trabalhadores do saneamento básico.

Alertou, no entanto, para a possibilidade transmissão da doença durantequalquer trabalho de jardinagem em casas particulares.

O seminário, que decorre até sábado, resulta do projecto científico "Epidemiologia e Controlo da Leptospirose nos Açores", no âmbito do actual acordo da Base das Lajes.

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