Indústria portuguesa subsiste à custa de poucos resistentes
Lisboa, 20 Set (Lusa) - Dificuldades de mercado, a chegada em força dos jogos de computador e o advento dos produtos chineses foram nos últimos anos acabando com a indústria de brinquedos portuguesa, da qual restam alguns resistentes e memórias cobiçadas por coleccionadores.
"Neste momento, os jogos de computador ocupam 50 por cento do negócio, uma dimensão que eu nunca pensei que atingisse", admite Pedro Feist, presidente da maior distribuidora de brinquedos nacional, a Concentra.
"Tem-se verificado uma redução dos escalões etários: a partir dos sete anos, os miúdos estão mais interessados em computadores do que em brinquedos, já só querem brincar com o PC", acrescenta.
Por isso, os fabricantes viram-se mais para brinquedos de alta tecnologia, baseados em personagens de programas de televisão - o gnomo "Noddy" à cabeça -, num negócio em que os licenciamentos são cada vez mais a chave.
"O Noddy, o Batman, o principal é ter boas licenças", refere Pedro feist, cuja empresa produz "peças exclusivas, licenciadas, em português", mas fabricadas na China.
"Em Portugal, não temos e nunca tivemos capacidade industrial para ter uma produtividade que nos tornasse competitivos", defendeu Pedro Feist, frisando que "aventuras, houve várias, mas fracassaram porque o mercado é muito limitado e o pequeno comércio de retalho praticamente desapareceu".
Além disso, as normas europeias de segurança aplicadas aos brinquedos foram outro duro golpe na pequena indústria portuguesa: "o que rebentou com as empresas foram as normas de segurança, nomeadamente no que se aplica às tintas, embora os brinquedos fossem bem-feitos, não as respeitavam e é muito difícil e perigoso comercializar coisas que não estejam autorizadas".
"Tirando algumas empresas que ainda resistem, algumas em Espanha, a Lego na Dinamarca, já nada se fabrica na Europa, porque a competitividade está na China", salienta.
Álvaro Silva, conhecedor e coleccionador, reitera que "desde que as coisas se passaram para a China, a indústria é ainda mais pequena", limitando-se a algumas empresas praticamente artesanais.
No entanto, lembra casos como a empresa Vitesse, da Maia, que desde os anos oitenta se assumiu como "líder mundial" no campo dos automóveis de brincar, mas se viu obrigada a fechar as portas em 2001, mesmo depois de ter deslocado a produção para a China.
Outra empresa, a Metosul - sedeada em Espinho, apesar do nome - ganhou fama pelas miniaturas de camiões Mercedes Benz, Volkswagens "carocha" e muitos outros modelos, cujas inscrições publicitárias os tornam uma peça muito apetecida de coleccionadores, mas fechou as portas em 1989.
É uma história semelhante à de outras fábricas: a Luso-Toys, da Maia, apostou nos carros de Rali de 1976 a meados dos anos oitenta, quando fechou, deixando um catálogo de peças tão apetecidas que Álvaro Silva diz que "é mais fácil encontrar uma formiga branca de olhos azuis do que um Luso-Toys".
Quem resiste continua a ser uma referência para muitos portugueses que cresceram com o Jogo da Glória ou o Monopólio em português: a Majora, no Porto.
A empresa afirma continuar a produzir mais de um milhão de brinquedos por ano, com uma história assente em jogos didácticos, de tabuleiro, mas também brinquedos electrónicos.
Com novas roupagens, no catálogo da empresa continuam a ser fabricados clássicos como o "Sabichão", a "Batalha Naval" e o "Jogo do Ganso" continuam a fazer parte do catálogo da empresa.
Carla Antunes, responsável pelo inventário no Museu do Brinquedo de Sintra, refere a tendência para algumas marcas reabilitarem brinquedos "clássicos", como os de madeira, os piões, feitos em condições artesanais, principalmente no Norte, que "fascinam adultos", assim transportados de volta à infância, mas "não cativam as crianças".
"É difícil contentar crianças que estão mais voltadas para jogos de muita acção e barulho e nos dizem, ao ver um pião que não tem piada porque não mexe", refere.
"Em Portugal, importamos tudo, os brinquedos mais baratos são os chineses, mas são também os mais imperfeitos. Os brinquedos de maior qualidade continuam a ser feitos por exemplo na Alemanha", apontou.
APN.