Intervençao social apoiada pela OMS uniu população do bairro critico das Alagoas
Peso da Régua, 18 Abr (Lusa) - O bairro crítico das Alagoas, na Régua, foi alvo de uma intervenção social que, durante três anos, aproximou a minoria de etnia cigana dos restantes moradores, ajudou crianças a regressar à escola e promoveu a qualificação profissional de alguns dos seus cerca de 650 habitantes.
"Hoje trabalhamos todos em conjunto. Esta união é um resultado do projecto", afirmou João Norton, 58 anos, presidente da Associação de Moradores do Bairro das Alagoas.
É a esta associação que, a partir de agora, cabe a responsabilidade de continuar a promover as actividades e a "cuidar" da "nova" imagem daquele que já foi um bairro crítico e degradado.
A intervenção nas Alagoas, que visou a integração social das famílias, decorreu no âmbito do programa de reabilitação "Velhos Guetos, Novas Centralidades", apoiado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em Portugal foram apenas aprovadas duas áreas de intervenção e reabilitação urbana ao abrigo dos Fundos EFTA - instrumento financeiro do Espaço Económico Europeu, associando-se ao bairro duriense, a localidade de Rabo de Peixe, na Ribeira Grande, Açores.
Nos Açores a intervenção deve terminar em Dezembro.
O projecto da Régua terminou a 31 de Março, mas o encerramento oficial da intervenção decorre terça-feira, numa cerimónia que contará com a presença do secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, João Ferrão.
O bairro, construído no final da década de 1970 para alojar as vítimas das cheias da Régua, foi sempre visto com atenção especial por parte da autarquia.
Repartidas por oito blocos habitacionais vivem 180 famílias, cerca de 650 pessoas, 30 por cento das quais são de etnia cigana.
João Norton, patriarca de uma família de etnia cigana, e que durante anos foi vendedor ambulante, foi um dos primeiros habitantes do bairro.
"Quando viemos não tínhamos água nem electricidade. A nossa casa foi destruída pelas cheias e, antes de virmos para aqui, ainda vivemos durante uns tempos na casa da Real Companhia Velha", afirmou.
Em quase três décadas "muita coisa mudou" naquele que é conhecido como o bairro verde, por causa da cor dos edifícios.
De bairro novo, as Alagoas passaram a revelar um cenário de famílias em acentuado processo de desestruturação, de conflitos sociais devido às diferentes culturas, com consumo de álcool e drogas, tráfico de armas e de substâncias ilícitas.
Por isso mesmo, a primeira intervenção da iniciativa "Velhos Guetos, Novas Centralidades" foi a social, estando ainda a decorrer a intervenção física nos edifícios.
"O projecto mexeu com o bairro todo. Ao trabalhar em conjunto com todos os moradores estes abriram-se mais e passaram a conviver também mais uns com os outros", salientou o patriarca.
Para este convívio "muito contribuiu" o bar da associação de moradores, onde estes começaram a passar os seus serões.
"Havia algumas pessoas que se isolavam muito. Aqui no nosso café são todos bem aceites", salientou.
Uma dessas pessoas foi António Pedro, de 21 anos, que desistiu da escola e esteve desempregado durante três anos.
A associação criou um posto de trabalho especialmente para o acolher e, quase dois anos depois, o jovem diz que, para além da imagem do bairro, as pessoas também se alteraram.
"Antes não convivíamos com os ciganos. Agora já jogamos à bola juntos", afirmou à Lusa.
O André tem apenas 14 anos, frequenta o nono ano, mas já fala praticamente como um adulto.
Apesar da timidez inicial, por causa da presença dos jornalistas, quando se fala nas Alagoas André não consegue manter o silêncio para defender o seu bairro.
"Sempre gostei muito de viver aqui. O bairro estava adormecido, era como uma laranja por espremer. Mas agora está tudo melhor", salientou o jovem.
Frisou que o projecto "trabalhou com os jovens e idosos" e ajudou a ultrapassar o "racismo", criando uma "união" com os ciganos.
"Fomos todos muito ajudados pelo projecto. Agora temos que mostrar que aprendemos e que somos capazes sozinhos", afirmou.
Uma equipa de seis elementos permaneceu no bairro, desde Janeiro de 2005, com o objectivo de promover a sua recuperação social.
Para o desenvolvimento comunitário de Alagoas, onde se verificavam também laços precários com o mercado de trabalho, associados a abandono escolar precoce e reduzido nível de escolaridade, foi promovida a qualificação profissional dos moradores.
Segundo a socióloga Maria João Lima, foram realizados cursos profissionais nas áreas da cozinha, informática, jardinagem e apoio à família e comunidade, e ainda ateliês de verão sobre cabeleireiro, pintura e escultura.
Com o objectivo de aproximar as duas comunidades foram constituídos grupos de futebol, teatro, danças latinas, hip-hop, africanas e dança "gipsy" para crianças e adultos, actividades que agora serão pro~sseguidas pela associação de moradores.
No decorrer do trabalho, desenvolvido ao longo dos três anos, Maria João Lima destaca "a relação estabelecida com os moradores", por quem diz que ganhou "muita afeição".
"No final das aulas, algumas crianças vinham para o pé de nós fazer os trabalhos de casa. Não era uma acção que estava prevista no projecto, mas era com muito gosto que nós os ajudávamos", salientou.
Segundo o gestor do projecto, Fernando Seara, a iniciativa ajudou ainda algumas crianças de etnia cigana a regressar às salas de aula, deixando de acompanhar os pais pelas feiras.
"Tivemos ainda casos de raparigas de 13 e 15 anos que, antes de casar abandonaram os núcleos de dança e futebol e depois, mais tarde, regressaram acompanhadas pelos seus maridos", salientou o responsável.
João Norton faz questão de acompanhar diariamente as obras de requalificação física que decorrem no bairro, nomeadamente a pintura dos edifícios, a reabilitação dos telhados, melhoramento do isolamento térmico e reparação das caixilharias, escadarias e do sistema eléctrico das habitações.
"Gosto de saber como as coisas correm e de estar bem informado", salientou o presidente da associação.
No âmbito deste projecto foi também requalificada a envolvente das habitações, renovado o sistema de esgotos domésticos e de drenagem pluvial, colocada iluminação pública, áreas de estacionamento, percursos pedonais e pavimentação, zonas de recreio, campo de jogos, enquanto as zonas verdes vão ser alvo de uma requalificação.
Na próxima terça-feira vão ser inaugurados os parques radical e de jogos, e abre também o edifício multiusos, onde ficará sedeada a associação e os núcleos criados no bairro.
Também nesse dia será apresentado um livro com a história do bairro, do projecto e das pessoas que ali vivem.
"Os objectivos sociais foram cumpridos, em termos financeiros não tivemos um único cêntimo de desvio e fizemos tudo o que estava previsto", afirmou o gestor do projecto.
O vereador da Câmara da Régua, Mário Montes salientou os resultados "positivos" resultantes da iniciativa pois, na sua opinião, a população do bairro está mais "integrada, participativa e confiante".
O autarca referiu que, no âmbito do projecto, se regularizaram atrasos no pagamento das rendas e se está ainda a resolver o problema das oito famílias que vivem no bairro de forma clandestina, já que ocuparam caves dos edifícios.
"Para resolver algumas questões, tivemos que servir de intermediários entre os moradores e o Instituto de Reabilitação e Intervenção Urbana (IHRU)", disse.
Este projecto contou com a participação activa do município de Peso da Régua, do Centro Distrital da Segurança Social e do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
Devido à dimensão do bairro, o local merece uma atenção especial por parte da GNR, estando as intervenções efectuadas ainda associadas a alguns casos de tráfico e consumo de estupefacientes e de agressões verbais e físicas.
Os problemas das Alagoas não estão apenas relacionados com a droga, mas também com a violência.
Em 15 de Maio de 2001 um tiroteio entre duas famílias provocou a morte a duas mulheres.
PLI.
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