Investigador Domingos Xavier admite negligência e defende supervisão do sistema
O especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas manifestou hoje dúvidas sobre a existência de "ações concertadas" nos negócios ligados aos fogos, mas admitiu "alguma negligência" e que o sistema carece de maior supervisão.
"Eu não nego que tal suceda [negócios fraudulentos], mas tenho dúvida que o volume destes negócios seja relevante e significativo", disse o diretor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais, referindo-se à possibilidade de existirem suspeitas de fraude em alguns negócios associados à gestão dos fogos rurais.
Ao longo da audição, sustentou não ter "conhecimento direto" de atividades ilícitas ligadas aos negócios dos incêndios, quer de madeireiros, quer de empresas de materiais de apoio à atividade de combate, e considerou que "não haja propriamente uma concertação de grande dimensão".
"A expressão maior da suspeita levaria a considerar que pessoas interessadas empregariam meios para causar mais incêndios, para reduzir a eficácia do combate, para haver maior duração dos incêndios, mais reacendimentos e, consequente, maior área ardida. Tenho dúvidas que haja ações concertadas nesse sentido", disse, admitindo a existência de "ações que manifestam alguma negligência neste âmbito".
Como exemplo, referiu o que considerou ser uma "negligência muito grande" o facto de não se usarem produtos retardantes no combate, o que facilita e reduz "a eficácia do combate, sobretudo os meios aéreos, que são aqueles mais dispendiosos".
Outra das negligências apontadas é não existirem dados sobre o movimento das aeronaves, nomeadamente a ausência de dados sobre onde estão a voar e descarregam os helicópteros e os aviões, além de ter manifestado uma "grande preocupação" com a gestão das faixas da rede elétrica.
Domingos Xavier disse ainda que "o sistema carece de uma maior supervisão pelos próprios cidadãos e depois pelas entidades responsáveis".
"Todo este sistema dos incêndios, como aliás outras coisas no país, andam em roda livre. Ninguém as vigia. E temos que olhar para isso", apelou, acrescentando que a CPI, "mais do que a mera busca de fraudes em negócios", deveria "identificar e corrigir diversas outras falhas que existem".