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Investigadores sugerem reforço do papel do farmacêutico para segurança dos doentes

Investigadores sugerem reforço do papel do farmacêutico para segurança dos doentes

Um estudo sobre automedicação hoje divulgado sugere o reforço do papel do farmacêutico e aponta a necessidade de disseminação das consultas de reconciliação terapêutica nas farmácias, sobretudo para segurança de doentes crónicos que tomam medicamentos para várias doenças.

Lusa /

O trabalho dos investigadores da NOVA SBE Pedro Pita Barros e Carolina Santos analisou a automedicação tanto com medicamentos não sujeitos a receita médica como com aqueles que precisam de receita e que as pessoas têm em casa por terem sobrado de tratamentos anteriores.

"Apesar de muita da população que decide recorrer à automedicação o faz através de informação que é disponibilizada na farmácia comunitária, há um grupo substancial de pessoas que decide automedicar-se com medicamentos que já tenha em casa", disse à Lusa a investigadora Carolina Santos, alertando: "há o risco destes medicamentos não serem adequados, sobretudo, os antibióticos".

Neste trabalho, os investigadores identificam dois perfis de pessoas que se automedicam e defendem, por isso, a definição de estratégias diferentes e adaptadas a cada um dos casos.

Sugerem a criação de um protocolo de apoio à medicação, com normas definidas entre médicos e farmacêuticos, que poderia também estar disponível através da Linha SNS24.

"A ideia é ter etapas bem definidas de quando é que é adequado a população utilizar aquele tipo de medicação que já tem disponível em casa", disse a investigadora, explicando que como a população com doenças crónicas tende a ser mais idosa, há o risco de não usar a medicação nas dosagens corretas, o que leva os investigadores a defenderem as revisões e reconciliações terapêuticas nas farmácias.

O documento lembra que mais de metade dos inquiridos disse ter recorrido à automedicação em algum momento e que esta se mostra frequentemente eficaz - quase sete em cada 10 participantes resolveram o problema sem procurar cuidados de saúde -, mas diz que se deve garantir que é segura e informada.

O relatório aponta para dois perfis diferentes: um de consumo/automedicação ocasional, no caso dos doentes mais velhos, crónicos e com menor escolaridade, mas que inclui pessoas com maior probabilidade de terem médico de família, o que sugere uma "integração mais estável nos cuidados primários".

Nestes casos, os desafios remetem para a literacia em medicamentos e para a autogestão segura de doenças crónicas, com os investigadores a sugerirem o reforço do papel do farmacêutico como ponto de contacto acessível e de confiança e a promoção de práticas de revisão periódica da medicação, assim como mecanismos que facilitem o descarte seguro de medicamentos não utilizados.

Quanto sugerem a criação de um Protocolo de Apoio à Automedicação, os investigadores dizem que a concretização desta implicava a definição de um modelo de financiamento específico para a atividade de referenciação realizada pelas farmácias, que se poderia tornar numa porta de entrada dos utentes no sistema e um ponto de triagem.

O outro perfil engloba pessoas que se automedicam por conveniência, que são tendencialmente as que ainda estão no mercado de trabalho: "a ideia é, novamente, facilitar o acesso, nomeadamente a cuidados de saúde primários através do alargamento das horas em que estão disponíveis", seja presencialmente ou por teleconsulta.

Sugerem ainda que se valorize e potencie recursos já existentes, como o SNS24, apontando a expansão e diversificação das funcionalidades digitais, incluindo ferramentas de triagem de sintomas, módulos educativos breves sobre automedicação segura ou respostas rápidas sobre o uso apropriado de medicamentos não sujeitos a receita médica.

"No fundo trata-se de tornar a informação fidedigna facilmente acessível", explica Carolina Santos.

Os investigadores apontam ainda uma área critica na circulação de informação, que é a comunicação médico-doente, sugerindo que ela seja mais fluida, transparente e sem julgamentos": "é preciso desmistificar a automedicação", diz.

"Nós vemos que há uma grande percentagem de pessoas que se automedicam e não informam o médico [63%] destes episódios", refere a investigadora, lembrando que esta circunstância limita a capacidade dos profissionais de saúde para avaliar riscos, orientar comportamentos e prevenir utilizações inadequadas.

Uma melhor comunicação médico-doente também serviria para nivelar o "excesso de confiança" que muitas pessoas têm para se automedicar e gerir de forma autónoma um episódio de doença, que faz com que muitas vezes adiem erradamente a procura de cuidados de saúde.

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