Jacarandás em Lisboa. Câmara anterior estava contra abate, peticionários lamentam falta de diálogo

Jacarandás em Lisboa. Câmara anterior estava contra abate, peticionários lamentam falta de diálogo

Ao contrário do que já foi dito por Carlos Moedas, um relatório sugere que o executivo anterior estava contra o abate de jacarandás na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Uma fonte conhecedora do processo fala de um "arraso quase total" inicialmente previsto.

Gonçalo Costa Martins, Oriana Barcelos - Antena 1 /

Foto: Miguel A. Lopes - Antena 1

A primeira proposta do estacionamento subterrâneo para Entrecampos vem de 2019 e dois anos depois não havia acordo.

De acordo com um relatório de 2021, consultado pela Antena 1, o problema eram as rampas de acesso ao parque posicionadas na avenida.

“Tudo isto implica o abate de praticamente todas as árvores do separador central da Avenida 5 de Outubro e a ocupação de grande parte do seu subsolo”, lê-se no relatório.

O documento era uma “passagem de pastas” na vereação de urbanismo, quando o mandato de Fernando Medina chegava ao fim e que na altura tinha como vereador Ricardo Veludo.

Já depois de conhecido o relatório, inicialmente dado a conhecer pela Visão e pelo Observador, uma fonte conhecedora na altura do projeto explicou à Antena 1 que a proposta inicial ia resultar num “arraso quase total” dos jacarandás.

A mesma fonte diz que isso se deve à ideia da Fidelidade, promotora do projeto, de interligar dois parques de estacionamento previstos, um na Avenida 5 de Outubro, outro nos terrenos da antiga Feira Popular, onde vai nascer uma urbanização.

Se não fossem as rampas ficarem na 5 de Outubro e a interligação dos parques, “os impactos seriam menores”, afirma a fonte ouvida pela Antena 1.

Apesar da intenção da Fidelidade de replantar árvores nos locais “em que seja possível” no separador central e de acrescentar “um novo alinhamento” num dos passeios laterais, a autarquia não queria aceitar a proposta.

“O signatário elaborou informação no sentido de não aceder às pretensões do promotor”,
é indicado no relatório.

O principal argumento da autarquia era o possível incumprimento do artigo 16º do Regulamento do Plano Diretor Municipal.

“Devem ser mantidos os eixos arborizados existentes e qualquer intervenção nestes eixos deve assegurar a manutenção e consolidação dos alinhamentos arbóreos em caldeira ou em canteiro e promover o aumento da superfície permeável”, refere uma das alíneas.
Ataque ao diálogo democrático
O abate e a transplantação de 47 jacarandás estão a mobilizar as populações. Segundo a câmara, há 25 árvores que serão abatidas, havendo a plantação de outras.

Uma fonte oficial do gabinete do presidente Carlos Moedas disse, entretanto, à agência Lusa que começaram a ser plantados jacarandás na avenida, isto depois de ontem terem começado “trabalhos preparatórios” de transplantação.

O assunto tem mobilizado as populações. A petição "Não ao abate dos jacarandás da Av. 5 de Outubro", criada na sexta-feira, 21 de março, já conta com mais de 50 mil assinaturas.

A repórter Oriana Barcelos passou a manhã nesta avenida de Lisboa, onde o corte de árvores está a ser encarado como um ataque ao diálogo democrático.

“Não temos confiança neste momento na câmara”, diz Pedro Franco, um dos primeiros signatários.

Apenas ontem os peticionários reuniram com a autarquia, refere, numa altura em que o assunto “já se trata de diálogo democrático e de envolvimento dos cidadãos nestes processos que acabam por transformar a face da paisagem urbana”.

“Temos de manter aquelas [árvores] que são adultas”, considera Pedro Franco, pelos “benefícios que não se comparam em nada com árvores que se acabaram de plantar”.
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