Jazigos históricos que vão a hasta pública atraem centenas de turistas

Centenas de turistas visitam anualmente o Cemitério dos Prazeres, seguindo percursos temáticos que lhes permitem admirar a simbologia e a arquitectura dos jazigos históricos ali existentes, cinco dos quais vão quinta-feira a hasta pública.

Agência LUSA /

Só no ano passado, 1.450 turistas - a maioria alemães - percorreram aquele cemitério, para contemplar a estatuária, a simbologia fúnebre, muitas vezes maçónica, e a heráldica dos milhares de jazigos ali construídos a partir de 1833, data em que foi construído após um surto de cólera que assolou a cidade de Lisboa.

Inserido no Roteiro Mundial do Turismo, o Cemitério dos Prazeres pode ser considerado como um verdadeiro "museu a céu aberto".

Exemplos daquele interesse histórico e artístico são cinco dos jazigos que vão ser leiloados quinta-feira, no âmbito de uma hasta pública promovida pelo vereador responsável pelo Pelouro da Gestão Cemiterial, António Prôa, dezenas de anos após terem sido abandonados pelos seus concessionários.

Um deles foi adquirido em 1887 e está abandonado há mais de 100 anos, mas faz parte do percurso dedicado à Heráldica Tumular devido ao escudo que ostenta e que é um testemunho valioso da história de Portugal.

Além dos cinco jazigos históricos do Cemitério dos Prazeres, mais 30 jazigos prescritos vão a esta hasta pública, 15 dos quais situados no Cemitério do Alto de São João, incluindo um que está classificado como histórico.

António Prôa disse à agência Lusa que a venda dos jazigos tem como principal objectivo "qualificar os cemitérios", além de representar "alguma receita" para a Câmara Municipal de Lisboa.

"Os jazigos que vão a hasta pública estão em elevado estado de abandono e degradação e quem os compra tem a obrigação de fazer obras de beneficiação, o que permite manter o bom estado de conservação dos cemitérios", adiantou o autarca.

Para que um jazigo particular seja considerado abandonado contribuem três factores: que nos últimos 15 anos não tenha havido qualquer movimento mortuário, não tenham sido realizadas as obras de beneficiação no jazigo em cada dez anos e não tenha sido registado nenhum averbamento, que actualize a sua tutela.

Segundo António Prôa, os 35 lotes que vão agora ser leiloados têm "um tempo de abandono muito superior aos 15 anos", estando a maioria abandonados há 30 ou 40 anos sem qualquer tipo de intervenção.

Nos últimos anos, tem-se mantido o interesse da população na aquisição dos jazigos, adiantou o autarca, explicando que os túmulos que vão a hasta pública correspondem à procura existente.

Ao contrário do que se pensa, os jazigos não são procurados apenas por pessoas com mais poder económico.

"Nestas questões da morte as situações são inesperadas. Os preços não são muito acessíveis, mas não são impedimento para serem procurados por pessoas de todas as classes sociais", salientou.

Os jazigos serviam para conceder a imortalidade de quem os mandava construir e esse desejo expressava-se por símbolos e signos que transportam a várias crenças, religiosas ou laicas, de quem os mandava erigir.

Em Lisboa, existem 14.755 jazigos particulares espalhados por seis cemitérios, encontrando-se a maioria nos mais antigos da cidade:

7.121 nos Prazeres e 6.660 no Alto de São João.

Dos cerca de 15 mil jazigos, 3.372 estão prescritos, dos quais 1.962 estão no cemitério dos Prazeres e 1.157 no Alto de São João, segundo dados do Pelouro de Gestão Cemiterial da Câmara, que indicam ainda que entre 1990 e 2004 foram alienados em hasta pública 377 túmulos.

Para combater o estado de degradação em que se encontram muitos jazigos dos cemitérios da cidade, a autarquia decidiu interceder junto dos proprietários para fazer obras de beneficiação, o que muitas vezes não é bem aceite pelos concessionários.

"Cada vez que as pessoas pedem para fazer uma trasladação, a autarquia verifica se o jazigo tem as obras de beneficiação, que são obrigatórias fazer em cada dez anos", começou por explicar à Lusa a arquitecta Ana Paula Ribeiro, chefe da Divisão de Gestão Cemiterial.

"Se as obras não tiverem sido realizadas, a trasladação fica condicionada à execução da limpeza", acrescentou a arquitecta, salientando que esta intervenção tem surtido bons resultados.

Esta intervenção resulta em "muitas obras em curso, cemitérios mais cuidados e menos jazigos abandonados", salientou Ana Paula Ribeiro, contando que há casos de abandono que podem causar problemas de saúde pública.

António Prôa salientou, por seu turno, que os jazigos são "um património muito rico que a cidade de Lisboa tem, mas que é desconhecido da maioria dos lisboetas".

"Os jazigos servem para preservar a memória da cidade e, além de serem um espaço de recolhimento devem ser um motivo de curiosidade dos lisboetas", sublinhou.

O Cemitério dos Prazeres é o mais monumental da cidade, onde repousam grandes personalidades portuguesas, como os escritores Aquilino Ribeiro e Fernando Namora, os actores Vasco Santana e João Villaret, o artista plástico Rafael Bordalo Pinheiro e o antigo presidente da República Manuel de Arriaga.

Mas também pessoas anónimas elegeram o cemitério dos Prazeres para última morada e escolheram como motivos para decorar o seu jazigo símbolos profissionais, que perpetuam o que fizeram em vida.

As ruas extensas do cemitério que ladeiam os jazigos são ornamentadas com os característicos ciprestes que estão actualmente a ser podados pela autarquia para garantir a segurança do local.

No interior do cemitério, existe um Núcleo Museológico dos Cemitérios de Lisboa onde estão expostas várias peças que reflectem a atitude e a evolução dos portugueses perante a morte.

Naquele local foram realizadas as primeiras autópsias pelos médicos Curry Cabral, Sousa Martins e Bento de Sousa, antes de serem criadas em 1899 as morgues de Lisboa, Porto e Coimbra.

Além do Cemitério dos Prazeres, os percursos temáticos vão ser alargados este ano ao Cemitério de Alto São João, onde existem jazigos de elevado interesse valor histórico.

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