João Loureiro classifica acusação como "atestado de bom comportamento"

Porto, 29 Fev (Lusa) - O ex-presidente do Boavista João Loureiro disse hoje que o caso Boavista-Estrela Amadora, de 2003, só vai a julgamento devido à pressão da opinião pública no âmbito do processo Apito Dourado e ridicularizou os factos que o vão levar a tribunal.

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"Se isto é o mais grave que cometi enquanto dirigente desportivo durante o ano e meio em que fui investigado, então até é um atestado de bom comportamento para mim", disse o ex-dirigente do Boavista.

Antes do desafio, que os "axadrezados" perderam por 1-0, registou-se uma conversa telefónica na qual se aventou a possibilidade do dirigente providenciar estadia a um familiar do árbitro Jacinto Paixão, o que nunca se verificou.

"Falam de uma conversa inócua que ficou por ali, não teve sequência. A própria acusação reconhece que não passou daquele dia, daquele momento. Nem chegou ao conhecimento do árbitro. Toda a gente sabe tantas coisas (situações de corrupção) neste país que envolve tantos milhões de euros e interesses e estamos a falar de uma coisa destas?", questionou.

Na base deste processo estão escutas telefónicas feitas pela Polícia Judiciária, em que, alegadamente, os arguidos - Valentim Loureiro (na altura presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional), Jacinto Paixão (árbitro), José Alves (observador) e Pinto Correia (na altura responsável pela arbitragem) - visavam favorecer o clube portuense.

"É possível - é uma opinião discutível, uma interpretação minha - que se não houvesse tanto ruído colateral, porventura a decisão não seria esta. O debate instrutório foi claro, incisivo. Nenhuma voz a discordar. Parece-me que isto teve de ficar de pé, senão era muito grave depois de tanta notícia, especulação e fugas ao segredo de justiça, crimes que jamais foram investigados", acusou.

O advogado criticou severamente as bases da decisão da juíza Isabel Lemos: "Assenta a sua tese quase em exclusivo em suposições, mas em Direito Penal tem de haver factos, não bastam interpretações, teorias. Aqui, a acusação baseia-se 80 a 90 por cento em suposições".

"E depois chega à grande conclusão que, na dúvida, vamos para julgamento. Na minha opinião, isto vai ao arrepio de tudo o que são os princípios do Direito Penal. O debate instrutório desmontou a tese da acusação. Para que servem afinal dos Tribunais de Instrução Criminal?", completou.

A magistrada mereceu mais duras palavras: "É preciso que a justiça para ser respeitada que se faça respeitar. E que as pessoas que decidem não sejam como Pilatos, lavem as mãos e digam que não é nada comigo. Há dúvidas, atira-se para a fase seguinte".

João Loureiro estabeleceu uma comparação entre esta situação e a decisão tomada em relação a Carolina Salgado, ex-companheira de Pinto da Costa, presidente do FC Porto, no caso da agressão ao deputado socialista de Gondomar Ricardo Bexiga.

"Tenho muito respeito pelos tribunais e instâncias jurisdicionais, mas não posso deixar de questionar como é possível que num mesmo processo global (Apito Dourado) num caso conhecido da opinião pública uma pessoa que confessa um crime não ir a julgamento e ver o caso arquivado? E noutra, em que não há factos, apenas suposições, e um debate instrutório elucidativo, na dúvida ir para julgamento?", questionou.

E, sempre na ofensiva, acrescentou: "Parece-me que a confissão como prova tem muito mais valor do que uma escuta telefónica, às vezes até desenquadrada do que se passa à sua volta. Tem mais força probatória que meras suposições. Bem... não há certeza, mas... parece que... é razoável acreditar que... Isto não é Direito Penal, por Amor de Deus".

"Considero a decisão bastante infeliz. Não vou mais longe na apreciação, porque tenho muito respeito pela justiça e não quero entrar noutro tipo de adjectivos. O que vier a seguir (julgamento) virá em abono de mim e de todos os restantes arguidos neste processo", confiou.

O antigo dirigente revelou alguns dos factos em torno do desafio: "O Boavista perdeu em casa com o último classificado, que já estava condenado à descida. Não houve casos no jogo. Punha-se a hipótese do árbitro ter sido beneficiado com a situação, mas no final da época até desceu de categoria".

João Loureiro contou, inclusivamente, que, ao contrário do que acontece com os demais jogos averiguados no mega processo de corrupção Apito Dourado, o desafio em causa não tinha imagens televisivas e que ele próprio as forneceu para anexar ao processo, "pois quem não deve, não teme".

"Estranha e lamentavelmente, a cassete nunca foi visualizada pela Polícia Judiciária, Ministério Público ou agora na fase de instrução, pois o meu advogado pediu uma perícia a exemplo do que sucedeu com os demais processos deste Apito Dourado", acusou.

Este é o único processo de João Loureiro que vai a julgamento: do Tribunal de Gondomar saíram 11 certidões, seis das quais arquivadas em diversas comarcas. A equipa liderada pela Procuradora-Adjunta Maria José Morgado arquivou outras quatro.

"Ainda não me tinha defendido, vou começar a fazê-lo. Se (o caso) não morreu por aqui, vai morrer um pouco mais à frente", concluiu.

RBA.

Lusa/Fim


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