João Magueijo, um português que quer desvendar o Mundo

RTP /
Na primeira obra, o cosmólogo português questionou a Teoria da Relatividade de Einstein, agora propõe uma viagem à vida de um ilustre desconhecido DR

João Magueijo nasceu em Évora há 42 anos. Depois dos estudos em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa mudou-se para Cambridge, em Inglaterra, onde concluiu o doutoramento. Actualmente faz investigação e ensina Física Teórica no Imperial College de Londres.

O cosmólogo português entrou no discurso dos média e assumiu um papel de relevo no mundo da Física quando colocou em causa uma das partes da Teoria da Relatividade de Albert Einstein: Magueijo afirma que a velocidade da luz nem sempre foi constante. As suas teorias mereceram a atenção do Discovery Channel, onde à maneira de Carl Sagan desvenda os mistérios do universo ao mais leigo dos telespectadores.


Em Dezembro passado, João Magueijo publicou a segunda obra. "A Brilliant Darkness" é um livro sobre Ettore Majorana, físico italiano que desapareceu misteriosamente aos 31 anos e cujo génio e loucura o levavam a apontar as suas teorias em maços de tabaco que depois amarrotava à frente dos colegas e deitava fora, adiando a solução para os enigmas da Física.

Publicou no ano passado um livro sobre um físico quase desconhecido. Porque é que Ettore Majorana tem tanto interesse para si?

Bem, desconhecido só mesmo fora da física, entre físicos todos sabem quem ele é. Há mesmo um tipo de partículas chamadas de Majorana, que pensamos vir a descobrir nos próximos anos. O trabalho de Majorana antecipa muita da Física de ponta que se faz hoje. Mas realmente é verdade que ele é praticamente desconhecido fora da comunidade científica (excepto na Itália, onde é tipo pop star).

E no entanto a história pessoal de Majorana é fascinante, muito para além do interesse que se possa ter pela sua ciência. Um dia, em Março de 1938, apanhou um barco entre Nápoles e Palermo e desapareceu por completo da face da Terra. Foi o culminar de uma crise pessoal com muitas facetas, mas que muito revela sobre a ciência e os cientistas. Sem querer trivializar o que será sempre muito mais complexo do que uma única explicação, parte da crise final de Majorana resultou de ele se recusar a fazer ciência como os outros: sem pensar nas consequências humanas, pessoais e colectivas. Mas a historia tem um lado humano tão mais rico do que isso que até me sinto mal em isolar uma vertente única da sua crise final.

O livro era um fim em si ou um caminho para outra coisa? Que coisa, que busca foi essa?

Sim, era um caminho para algo além da história de Ettore Majorana. A história dele é, se não universal, bem mais geral do que o seu drama pessoal. É a história do que acontece a quem pensa demais e não se é simplesmente levado pelo rebanho e força de hábito. Isto em 1938, em véspera da guerra, e de uma guerra em que os físicos desempenhariam um papel central, tem que dar pano para mangas.

Sendo Ettore Majorana um teórico, digamos que o cérebro seria o seu laboratório. Acredita que poderá haver num mosteiro algures no planeta uma colecção de textos que daria resposta a problemas que por via do desaparecimento ou reclusão do físico italiano acabaram por ficar sem essa resposta?

Não, claro que não. É obvio que o que quer que lhe aconteceu, depois de apanhar esse navio em 1938, ele deixou de fazer Física. E mesmo que quisesse continuar, teria deixado de o fazer. É verdade que um teórico tem o cérebro como laboratório, mas só em parte. O resto do laboratório é o cérebro dos outros. O isolamento total a certa altura teria tido efeitos na sua produtividade. Mesmo quando ele se fechou no quarto por quatro anos, não estava totalmente isolado. Amigos apareciam-lhe em casa, e a contra gosto sabia o que se ia passando pelo mundo da física. A ciência, mesmo para génios como Majorana, nunca acontece num vácuo.

Acha mesmo credível que Majorana possa ter escrito importantes resoluções em maços de tabaco que depois amarrotava e deitava fora ou isso é a parte da lenda?

Pelo contrário, isso não é lenda nenhuma. Está bem documentado em várias ocasiões e por pessoas diferentes. O pior é que não terá acontecido só uma vez, mas era um hábito que ele tinha - atirar fora o trabalho que fazia e que depois, mais tarde, vinha de facto a ser de grande importância.

Lenda, lenda, será - talvez - a espontaneidade com que essas revelações lhe apareciam. Algumas terão sido mise-en-scène. Mas aí ele era como todos os génios tipo Feynman: tinha um pouco de aldabrão à mistura, e era isso que o tornava ainda mais engraçado.

Quando poderá surgir uma edição em português do seu livro sobre Majorana?

Não sei. Ouvi dizer que está a ser traduzido pela Gradiva. Sou sempre o último a saber dessas coisas.

Escreveu o livro em português ou inglês?

Em Inglês. Por muito que goste da Língua Portuguesa estou muito mais habituado a escrever em Inglês, já há uns anos.

Por algumas declarações que fez ao Público ficamos com a ideia de que o mundo da ciência é dominado por critérios subjectivos (publicação de trabalhos, por exemplo). Como é que um cientista vive com isso?

Com dificuldades. E para dizer a verdade a imprensa não ajuda. Está sempre à procura de critérios para validar argumentos de autoridade, como seja publicações em certas revistas. Acontece que dentro da comunidade científica algumas dessas revistas - a tão famosa Nature, por exemplo - são uma fraude total. Isso não é segredo nenhum para os cientistas (cosmólogos, no meu caso), mas essa fraude continua a ser engolida de azeite e vinagre pelos outros, e pelos media, em particular.

Passámos parte da nossa vida a ter como certo que E=mc2. O que sente ao desenvolver um trabalho que questiona uma das teorias mais importantes dos nossos tempos e um gigante da Física como Albert Einstein?

É o meu trabalho. Se não questionasse um pilar como esse, não o estava a fazer correctamente.

Até que ponto é que o trabalho dos físicos está dependente de provas experimentais quando se "especula" ao nível do invisível? A sustentação teórica é bastante?

A experiência será sempre a validação ou refutação final, nunca a
sustentação teórica. Mas é claro que particularmente em áreas no limite do nosso conhecimento é precisamente a especulação teórica que guia a experiência. Dá-lhe alvos a abater.

Há anos que começou a entrar no léxico comum a ideia de uma Teoria da Unificação do Universo. Stephen Hawking é apontado como um dos cientistas que perseguia essa Teoria do Tudo mas aparentemente desistiu dela. Que contribuição poderá dar a sua teoria da velocidade da luz variável (VSL) para a construção desta teoria unificadora?

Pode ser a peça fundamental, e é mesmo nisso que trabalho de momento. Acho que estamos de mãos atadas num passo fundamental, que é a união da mecânica quântica e do espaço-tempo, precisamente porque insistimos que a velocidade da luz é uma constante. Uma das implicações é que comprimentos, por exemplo, não podem ser absolutos, mas nenhuma distância grande ou pequena, mesmo que seja uma distância ínfima, como seria quiçá aquela de regula os "átomos" do espaço, os quanta de distância. Acho que andamos há décadas a brincar com uma contradição em termos, a constância da velocidade da luz e a necessidade de um espaço granular. Sem se resolver esse dilema parece-me que essa grande unificação é impossível.

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