Jorge Sampaio regressa a casa cansado, mas satisfeito

Notoriamente cansado, mas ao mesmo tempo visivelmente satisfeito, Jorge Sampaio terminou hoje em Timor-Leste a sua última viagem oficial enquanto presidente da República, quando faltam apenas duas semanas para passar o testemunho a Aníbal Cavaco Silva.

Agência LUSA /

Ao longo de três dias, cumpriu um programa intenso, carregado de gestos simbólicos - Sampaio chegou a ser apanhado pela crise militar timorense espoletada a 08 de Fevereiro em Díli, mas soube ultrapassar esse constrangimento -, levando de volta para casa a certeza de que é actualmente o político português que faz o pleno entre a classe política timorense.

A mensagem escrita que deixou na base Naval de Hera, inserida à última hora no programa em substituição de uma deslocação ao Centro de Instrução Militar, em Metinaro, traduz o interesse com que gostaria de ver as forças armadas timorenses acertarem o passo com o ritmo de desenvolvimento em curso no país.

A transformação de guerrilheiros em militares de uma força regular continua a atravessar algumas vicissitudes em Timor-Leste, mas na mensagem que lhes deixou, vincou que "as forças armadas têm de ser parte da solução. Nunca, mas nunca, parte do problema".

A bem da verdade, o sucesso da viagem começou a desenhar-se na véspera da sua chegada a Díli.

Reunidas em sessão plenária, todas as bancadas parlamentares subscreveram uma resolução que viria a ser aprovada por unanimidade, concedendo-lhe a cidadania honorária.

O gesto de reconhecimento pela sua contínua actividade em prol da independência de Timor-Leste ficou completo com a concessão de um passaporte diplomático.

Depois, cumprindo um programa que o levaria a conhecer em pormenor algumas das áreas em que a presença de Portugal se sente e marca a diferença, além das visitas institucionais sempre presentes nestas deslocações, Jorge Sampaio testemunhou a assinatura de três protocolos que reforçam a ligação luso-timorense.

Foi o caso do protocolo que formaliza a continuidade da participação de Portugal no reforço do sistema judicial timorense, através do endosso de três milhões de dólares (2,5 milhões de euros) ao PNUD para financiar o Programa de Fortalecimento do Sistema da Justiça.

Foi ainda o protocolo que garante, no prazo de 12 meses, a criação de uma rede técnica que assegure o transporte do sinal de rádio e televisão aos 13 distritos timorenses, no valor de 1,5 milhões de dólares (1,25 milhões de euros).

E foi, finalmente, o protocolo que envolve empresas privadas portuguesas e timorenses, as dioceses de Díli e Baucau e outras entidades da sociedade civil timorense para levar, por fases, a Internet às mil escolas de Timor-Leste.

O testemunho político, baseado na sua leitura das competências dos órgãos de soberania, foi transmitido em três actos.

Primeiro no Parlamento Nacional, depois num seminário organizado por Xanana Gusmão perante dirigentes políticos do poder e da oposição e, por último, num encontro com centenas de estudantes universitários, Jorge Sampaio deu uma aula de Ciência Política.

Sem querer parecer paternalista, disse, enunciou as virtudes de um regime democrático alicerçado na participação colectiva, em constante aperfeiçoamento, e que reconhece às oposições um papel de relevo, de forma a possibilitar a alternância.

No que diz respeito aos vários projectos que a Cooperação Portuguesa mantém em Timor-Leste, Sampaio destacou dois: a reintrodução da língua portuguesa e a formação profissional.

No primeiro, durante a visita à Escola Portuguesa de Díli - em que manteve uma breve reunião com parte dos cerca de 111 professores portugueses colocados em Timor-Leste, cujo trabalho enalteceu - e nas deslocações ao interior do país, aos distritos de Liquiça e Ermera, o chefe de Estado português sublinhou a importância da decisão timorense na escolha do português como uma das línguas oficiais.

A outra língua oficial é o tétum.

Depois, em Tibar, aquando da ida ao Centro Nacional de Emprego e Formação Profissional, projecto iniciado em 2001 e em que Portugal já investiu 3,5 milhões de euros na formação de centenas de carpinteiros, canalizadores, electricistas e pedreiros, chamou os jornalistas portugueses que cobriram a visita para classificar o que viu como "o mais importante projecto de Portugal em Timor".

A reconstrução de Timor-Leste, segunda etapa do país depois de alcançada a independência, passa também pelo investimento estrangeiro e, nesse sentido, uma delegação empresarial integrou a comitiva do Presidente Sampaio para ouvir do Governo timorense quais as condições existentes para apostarem em áreas tão diversificadas como os serviços, turismo, energia, banca e telecomunicações.

Com esta iniciativa, Jorge Sampaio logrou trazer a Timor- Leste, entre outros, o magnata dos casinos de Macau, Stanley Ho, que se mostrou interessado em reforçar os investimentos que já tem, apostando agora num hotel na ilha de Ataúro, com a abertura de um casino que coloca Timor-Leste na rota do jogo legalizado e gerador de receitas.

Para o futuro fica o desejo manifestado hoje em Gleno, no distrito de Ermera, pelo secretário de Estado para a Coordenação da Região III, Egídio de Jesus, de que Aníbal Cavaco Silva, que sucederá a partir de 09 de Março a Jorge Sampaio no Palácio de Belém, prossiga o trabalho e o apoio que este imprimiu em parte significativa da sua vida política a Timor-Leste.

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