José Miguel Júdice defende "mudança profunda" em todos os níveis da sociedade
Coimbra, 30 Out (Lusa) - O advogado José Miguel Júdice defendeu hoje, em Coimbra, uma mudança profunda de Portugal em quase todos os níveis da sociedade mas não uma revolução de militares de "cabeça incendiada, de que fala o general Loureiro dos Santos".
"Há mudanças que têm de ser feitas, ao nível do modelo eleitoral, do sistema partidário, da organização social, da forma como portugueses encaram o serviço cívico, nas profissões e nos jornais", afirmou o antigo bastonário da Ordem dos Advogados, que olha o futuro com "muita preocupação".
José Miguel Júdice falava aos jornalistas no final da apresentação do seu novo livro "Portugalando", que reúne uma colectânea de crónicas publicadas em 2007 no jornal Público e revela um "optimista preocupado" com o destino do País.
"Penso que o bom está no futuro mas olho para ele com muita preocupação porque vejo os sinais que temos da realidade que nos levam a desesperar muitas vezes, a desacreditar e alguns de nós a desistir", afirmou Júdice na cerimónia de lançamento da sua obra, que foi apresentada por José Manuel Fernandes, director do Público.
"Sempre tive uma perspectiva social muito intensa, nunca disse que era liberal ou muito menos neoliberal, nunca acreditei que o mercado resolvesse tudo e o que se está a passar no mundo não me surpreende", sublinhou na sua intervenção.
Na sessão, o advogado de Coimbra lançou, em tom de ironia, algumas farpas ao general Loureiro dos Santos, considerando que foi "insensato" ao "dar a entender que a tropa pode fazer golpes de Estado no século XXI em Portugal".
"Ou é uma irresponsabilidade ou um acto falhado", vaticinou Júdice, que disse "respeitar" as Forças Armadas.
Aos jornalistas, o advogado disse que "temos de mudar porque o País está mau" e sugeriu, como exemplo, a diminuição das receitas do Estado para fazer baixar o consumo público do Estado, diminuir o peso do Estado da Economia e no consumo".
"O Estado deve existir e quando há afiliação deve poder acorrer a apoiar a economia, os trabalhadores e as empresas mas, para isso, tem de ter reservas não pode desperdiçar em consumo público excessivo", sustentou José Miguel Júdice.
A propósito da crise económica em Portugal, o ex-bastonário da Ordem dos Advogados afirmou que "o primeiro-ministro percebeu, sendo de esquerda, que a única forma de honrar os valores essenciais da esquerda é fazer reformas".
"A esquerda é que de um modo geral não percebeu ou não quer perceber e acha que é possível manter o Estado Social sem fazer reformas. Não é", frisou, acrescentando que a actual crise vem provar que o Estado Social é importante mas não "deve ser irrealista como a sociedade".
AMV.
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