Judas queimado após bem animado cortejo fúnebre cheio de "lágrimas de crocodilo"

Viana do Castelo, 11 Abr (Lusa) - O Judas, apóstolo que com um beijo traiu Jesus Cristo, foi hoje queimado em Viana do Castelo, após um bem animado cortejo fúnebre, em que até os prantos das suas ex-mulheres eram apenas "para não parecer mal".

© 2009 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

"Estou a chorar porque parecia mal que assim não fosse, mas, olhe, pena dele não tenho nenhuma. Acredite que ele não era flor que se cheirasse", confessou à Lusa Teresa Perestrelo, uma das "carpideiras de serviço" na representação da "Queima do Judas".

Esta é uma tradição pascal que há muitos anos se realiza na freguesia de Monserrate, na freguesia de Viana do Castelo, e que assinala não só o fim do Inverno e consequente chegada da Primavera, mas também a Ressurreição de Jesus Cristo.

"É uma passagem do bem para o mal", explicou fonte da organização.

O cortejo fúnebre pelas ruas da cidade, com o Judas transportado em ombros numa padiola, foi acompanhado de um grupo de bombos e gaitas, que interpretou bem animadas cantigas populares.

"Há pessoas que a gente enterra - ou, neste caso, queima - com todo o prazer e com muita alegria", disse a mesma fonte.

Atrás da padiola, três mulheres vestidas de preto, as chamadas carpideiras, ex-namoradas ou companheiras de Judas, "choravam" de tristeza pelo desaparecimento do "seu homem", mas lágrimas nem vê-las.

"Nunca ouviu falar em lágrimas de crocodilo?", questionava Teresa Perestrelo, para imediatamente confessar o "alívio" que sentia por finalmente "se ver livre" de um traidor.

"Da mesma forma que traiu Jesus, certamente que também nos traía a nós. Aliás, só hoje, neste funeral, vejo três `viúvas` a carpir mágoas", insinuava a mesma mulher.

As lágrimas destas três mulheres eram, assim, tão falsas como o beijo que Judas deu a Jesus Cristo, entregando-o aos seus captores em troca de trinta moedas de ouro.

É precisamente por este enriquecimento de forma "pouco cristã" que a tradição manda que Judas seja queimado em vésperas da Ressurreição de Jesus Cristo.

Mais verdadeiros eram os sentimentos expressos por dois jovens, ambos de fisga na mão, que se fartaram de "massacrar" o Judas ao longo de todo o cortejo pelas ruas da cidade.

Um dos pontos altos da Queima do Judas é a leitura do testamento, que este ano deixou, essencialmente, "recados", já que os seus bens ficaram quase todos na "reunião de credores" realizada na véspera.

Um dos principais recados do testamento foi para o primeiro-ministro, José Sócrates, a quem Judas deixou paciência e humildade, que considera ser o que mais "lhe anda a faltar".

De resto, Judas deixou ainda críticas ao estado dos arruamentos de Monserrate, à PSP pelas multas de estacionamento, aos "craques das moedinhas" [arrumadores] e à falta de retretes públicas na cidade.

VCP.

 

Tópicos
PUB