Julgamento de criança queimada com óleo em café começou hoje no Porto

Porto, 29 Set (Lusa) - O julgamento do caso de uma criança queimada com óleo, num estabelecimento de restauração, começou hoje, no Porto, com o depoimento da cozinheira que alegadamente causou o acidente.

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A cozinheira do café, onde Iara Maubert, de oito anos, foi queimada há dois anos com óleo quente, disse hoje nos juízos criminais do Bolhão que "ia levar o óleo para um bidão no terraço quando se deu o acidente".

"Deixava sempre o óleo arrefecer primeiro [antes de o transportar para um bidão que se encontrava no exterior do estabelecimento] mas nesse dia estava com um bocadinho de pressa e por isso não procedi como de costume", admitiu Clara M..

A cozinheira é arguida num processo que hoje começou naqueles juízos, juntamente com os gerentes Benjamim A. e Aurélio R., acusados pelos crimes de ofensa à integridade física por negligência grave e omissão de dever de auxílio.

Segundo contou ao tribunal, "abri a porta da cozinha, olhei para a esquerda e para a direita, como faço sempre, e não tinha dado dois passos quando a menina bateu no balde por trás e ele transbordou".

De acordo com a acusação do Ministério Público (MP), na cozinha do café não existia um recipiente para acondicionar o óleo usado pelo que era necessário transportá-lo num balde para um bidão localizado num terraço, tendo a cozinheira de passar pelo corredor de acesso às casas de banho do público para o efeito.

"Inicialmente deitava o óleo para o esgoto mas entretanto saiu uma lei, há cerca de seis anos, e passei a transportá-lo para um bidão", explicou a cozinheira.

Depois do acidente, disse, "fui eu que enchi uma panela com água para o padrasto deitar por cima da menina", sustentou Clara M., quando confrontada com o impedimento de auxílio que consta da acusação do MP.

Um dos gerentes, Aurélio R., explicou que estava a chegar ao estabelecimento quando se deu o acidente, admitindo ter "corrido para chamar uma ambulância mas como ninguém atendia disse à mãe (Sara Ribeiro, mãe da menina) para ela tentar".

"Como estava a demorar para atender eu disse para chamar um táxi para levar a menina ao hospital que eu pagava", sustentou apesar da acusação alegar que os funcionários do restaurante impediram os pais de Iara de contactar o INEM.

Para Aurélio R. "a culpa foi da garota que não parava".

Também o gerente Benjamim A. assegurou ter "avisado a criança que se podia magoar" já que esta "andava por ali nas correrias e aos saltos".

Confrontada, à saída da audiência, com estas declarações a mãe da criança, Sara Ribeiro, disse tratar-se de "uma mentira".

"Nunca chamaram à atenção de nada", afirmou sustentando que Iara "ia a sair da casa de banho quando tudo aconteceu".

Iara Maubert foi queimada com óleo, a 30 de Agosto de 2006, num café do Porto, quando, ao sair da casa de banho, colidiu com a cozinheira que transportava, para o pátio, um balde de óleo quente, usando o mesmo corredor.

A menina ficou com 40 por cento do corpo queimado e foi sujeita a várias cirurgias na Corunha, Espanha, porque, ao que relatou Sara Ribeiro, a Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de São João, Porto, não dispunha dos meios necessários.

As despesas em Espanha foram comparticipadas pelo Estado Português mas essa ajuda terminou quando os tratamentos foram concluídos e a menina regressou a Portugal.

De acordo com o advogado da assistente, Diogo Leite, os responsáveis do café tentaram "encobrir a situação, impedindo a mãe da Iara de chamar o INEM ou até de lhe dar água".

Por causa das queimaduras, Iara Maubert terá de ser sujeita ainda a várias cirurgias que incluem um implante mamário, além de ter de frequentar sessões de psicoterapia e pedopsiquiatria pelo stress pós-traumático provocado pelo acidente.

O julgamento prossegue dia 17, às 09:30, nos juízos criminais do Tribunal do Bolhão, Porto.

Será a vez da tomada de declarações da mãe de Iara e a inquirição das testemunhas da acusação.

LYL.

Lusa/Fim.


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