"Laboratorio Chimico", espaço único na Europa abre portas aos alunos
O soalho cheira a novo e a madeira do anfiteatro está brilhante como o terá sido no passado, antes de o "Laboratorio Chimico" da antiga Escola Politécnica, em Lisboa, ter ficado desgastado pela passagem de milhares de alunos.
Recuperado na sua traça original, que data do século XIX, o Laboratório Químico - na sua grafia actual - foi inaugurado quinta-feira ao fim do dia com a presença do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago e perante mais de 300 pessoas. A partir de hoje, os alunos podem desfrutá-lo.
"O laboratório foi um espaço de aulas enquanto a Faculdade de Ciências - que em 1911 sucedeu à Escola Politécnica - aqui funcionou mas, em meados dos anos 1990, continuava a receber estudantes, apesar de a Faculdade já se ter mudado para a cidade universitária", recordou a museóloga Graça Santa-Bárbara.
"Este espaço é único na Europa e agora está conforme o original", assegurou ainda a responsável, acrescentando que "só através de fotografias de época foi possível reconstituir o anfiteatro e a sala de experiências".
Tendo acompanhado o projecto desde o início, Graça Santa-Bárbara explicou à agência Lusa que a bancada central colocada na zona baixa do anfiteatro "estava desmontada em mil pedaços, tendo sido recuperada com recurso a 70 por cento da sua madeira original".
"Um milagre", como o descreve, a que se somam outros, "como o facto de a parede do anfiteatro, que estava coberta por uma tonalidade cinzenta, esconder uma pintura a imitar mármore original de meados do século XIX", descoberta após a decapagem.
Na sala ao lado, com bancadas de madeira e tampos em azulejo, tinham lugar as experiências feitas pelos estudantes sob a alçada de professores como Agostinho Vicente Lourenço (1822-1893), António Augusto de Aguiar (1838-1887) e José Júlio Rodrigues (1845-1893).
Termómetros, pipetas, tubos de ensaio e decantadores são apenas alguns dos objectos visíveis na sala, que assim exibe ao público parte de um espólio de três mil artigos, que irá ser exposto na íntegra quando as outras divisões da antiga escola forem abertas.
Neste momento, encontram-se ainda em recuperação o espaço da antiga biblioteca de química, outros laboratórios e alguns gabinetes de professores, "que até ao final do ano deverão dar origem a uma oficina pedagógica, a uma sala de audiovisuais e a uma sala para exposições temporárias", revelou Graça Santa-Bárbara.
"A estrutura que o Laboratório de Química agora apresenta recupera a imagem de finais do século XIX, ocasião em que o espaço foi restaurado à talha para receber o químico alemão August von Hofmann, que aqui esteve em visita em 1890", contou Fernanda Madalena, ex-directora do Museu da Ciência e antiga professora de Química.
Aliás, o busto de Hofmann figura no anfiteatro ao lado dos bustos do também alemão Justus von Liebig e do francês Antoine Laurent Lavoisier, considerado o pai da química moderna.
De acordo com Fernanda Madalena, "este modelo de anfiteatro com laboratório foi desenvolvido por Liebig em meados do século XIX e usado um pouco por toda a Europa, tendo o professor José Júlio Rodrigues decidido implantá-lo na Escola Politécnica".
O espaço foi-se, porém, "degradando com a passagem de milhares de alunos", disse à Lusa o docente Fernando Fernandes, que foi aluno e professor na Faculdade de Ciências enquanto ela funcionou no local que hoje serviu de ponto de encontro a antigos colegas.
"Fui aqui aluno entre 1964 e 1970, tendo-me tornando depois assistente e, mais tarde, docente", recordou Fernando Fernandes, que aos 61 anos continua a leccionar Química na Faculdade de Ciências.
O docente universitário deu aulas nas instalações agora remodeladas até 18 de Março de 1978, data de um grande incêndio que constitui "a única má memória desse período", do qual diz ter "muitas lembranças felizes, quer como aluno, quer enquanto professor".
O incêndio teve início num pré-fabricado instalado numa pequena zona de jardim, "alegadamente devido a um curto-circuito", recordou o professor à Lusa, acrescentando que "foi o general Ramalho Eanes quem comandou a intervenção dos bombeiros".
"Na ocasião, a intervenção foi alvo de críticas, por Ramalho Eanes ter tido como grande preocupação proteger o laboratório com uma cortina de água, mas ele tinha as suas razões, pois sabia - ao contrário da maioria - que existia ali cianeto de potássio, um composto químico altamente inflamável", revelou o docente.
O projecto de recuperação do Laboratório da Química começou a ser concebido em 1998 mas as obras apenas arrancaram em 2003, com o apoio mecenático da Associação Portuguesa de Indústria Farmacêutica (Apifarma) e do Programa Operacional da Cultura (POC).
A inauguração dos primeiros espaços recuperados contou com a presença de figuras como os professores José-Augusto França, Nuno Crato e José Barata-Moura e a directora do Jardim Botânico, Maria Amélia Loução, bem como com uma actuação do Quarteto Lacerda.