Lançamento de foguetes em romaria de Aldeia Viçosa só possível após acordo judicial

Guarda, 26 Mar (Lusa) - Um acordo judicial hoje estabelecido entre um residente em Aldeia Viçosa, Guarda, e a comissão de festas da Senhora do Carmo, permite que a romaria do próximo fim-de-semana, mantenha a tradição do lançamento de foguetes.

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O conflito teve início quando Mário Triunfante, residente na Quinta de Santo António, naquela freguesia, apresentou uma providência cautelar junto do Tribunal Judicial da Guarda com o objectivo de proibir o lançamento de foguetes, durante a festa religiosa, alegando motivos ambientais.

Segundo o queixoso, que recentemente criou a Fundação da Trepadeira Azul, naquela zona do Vale do Mondego existem aves e borboletas que estão a ser estudadas para constarem num guia ambiental, considerando que a sua sobrevivência poderia estar em risco "com o rebentamento dos foguetes".

"Isto pretendia apenas evitar que fossem lançados foguetes de grande intensidade por forma a proteger a nidificação das aves", disse Mário Triunfante para justificar a apresentação da providência cautelar.

A atitude do queixoso não agradou à comissão de festas local, à Junta de Freguesia, nem a cerca de uma centena de populares que durante a manhã de hoje, para quando estava prevista a audição das testemunhas, se concentraram nas instalações do Tribunal da Guarda.

Os habitantes presentes mostraram-se revoltados com a atitude de Mário Triunfante, exigindo, desde a primeira hora, que a tradição do lançamento de foguetes se mantivesse.

"Para proibirem o lançamento de foguetes em Aldeia Viçosa também tinham que proibir em Portugal inteiro, porque há pássaros e borboletas em todo o lado", disse a habitante Elisa Gonzaga, de 57 anos.

Após um período de troca de argumentos, as partes em conflito chegaram a acordo, tendo o juiz João Marcelino, lido aos presentes as linhas do documento judicial que permite o lançamento de foguetes, mas com regras.

A comissão de festas de Nossa Senhora do Carmo comprometeu-se "a lançar os foguetes dentro dos limites do recinto da capela, salvaguardando sempre a propriedade do requente", refere a decisão.

Ficou ainda assente que "tanto os explosivos como as canas [dos foguetes] não cairão dentro da propriedade do requerente" e que os responsáveis pela romaria anual não efectuam "o lançamento de canhões morteiros".

Os populares que enchiam a sala de audiências receberam a decisão com uma ruidosa salva de palmas.

"Não cabia na cabeça de ninguém que não fosse assim", disse Elisa Gonzaga.

Por sua vez, Virgílio Gil, da comissão de festas, afirmou à Lusa que com o acordo "evitaram-se situações desagradáveis" e foi colocado um ponto final "num conflito que opunha a povoação inteira a uma pessoa".

O membro da comissão de festas disse ainda que durante a festa, que terá lugar no fim-de-semana, mas apenas inclui o lançamento de foguetes junto da capela da Senhora do Carmo no domingo, tudo irá ser feito para que o compromisso seja respeitado.

"Se, eventualmente, caírem canas na propriedade [do queixoso] disponibilizamo-nos a retirá-las", garantiu.

O queixoso também acatou a deliberação, afirmando que pela sua parte "não haverá novos conflitos".

"Se as pessoas respeitarem o acordo, respeitarei a minha palavra", afirmou.

António Nave, 78 anos, habitante de Aldeia Viçosa, também presente no Tribunal, mostrou-se agradado com o compromisso assumido, pois garantiu que caso não fosse permitido o lançamento de foguetes "a festa já não era a mesma coisa".

"Se não houvesse foguetes não havia festa", referiu, dando conta que "toda a vida se deitaram foguetes, mesmo em alturas em que não eram necessárias licenças, e nunca surgiu um problema destes".

O presidente da Junta de Freguesia de Aldeia Viçosa, Baltazar Lopes, justificou a deslocação dos habitantes até ao Tribunal, num autocarro fretado para o efeito, pela "defesa de uma tradição de há muitos anos".

Referiu que pela primeira vez "alguém se queixou que as borboletas e os pássaros morrem com o barulho dos foguetes".

Com o acordo judicial hoje conhecido, os habitantes de Aldeia Viçosa, garantem que vão viver a festa anual da Senhora do Carmo "ainda com mais alegria", porque os foguetes, devidamente autorizados, vão voltar a ecoar nos céus do Vale do Mondego, como sempre aconteceu.

ASR.

Lusa/Fim


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