Lobos espreitam o gado que sobe a serra à procura do pasto queimado
O dia de Venâncio começa igual a todos, subindo, de cajado na mão, a serra à procura do pasto que rareia para as suas 320 cabras, mas sempre "à coca" para prevenir as investidas do lobo.
Venâncio Domingues, 44 anos de idade e pastor há 16, vive no Soajo, Arcos de Valdevez, freguesia que no último Verão viu arder cerca de 3000 hectares de monte, para desespero dos criadores de gado.
Acossado pela fome, os lobos fazem o caminho inverso e tendem a aproximar-se cada vez mais dos currais dos animais.
"Desde Novembro, os lobos já me comeram mais de 20 cabras, e uma das vezes foi a 300 metros da minha casa.
Houve também ataques de lobos junto ao cemitério. Nos últimos meses, tem sido uma coisa horrível", lamenta Venâncio Domingues.
No final do dia, na hora de regressar a casa com o rebanho, dá "graças a Deus" quando verifica que não lhe falta nenhum animal.
"Sempre que vejo um animal morto pelo lobo, sinto desgosto, revolta e desânimo. É uma tristeza muito grande.
A gente ganha afecto aos animais, pois é com eles que eu passo todos os dias do ano. Quando se perde algum, ficamos com o coração mais negro do que estes montes", confessa.
Como o pasto falta nos montes, os pastores deixam os seus rebanhos a pastar em terrenos mais junto de casa.
Os lobos sentem-se, então, obrigados a descer a serra, à procura das suas presas.
"O lobo está a ser alimentado pelos nossos animais.
É uma espécie protegida, mas quem lhe dá de comer somos nós", critica, por seu turno, Casimiro Fernandes, dono de 60 cabeças de gado bovino.
Casimiro, também secretário da Junta do Soajo, aponta o dedo aos responsáveis do Parque Nacional da Peneda- Gerês pelos "intoleráveis" atrasos no pagamento das indemnizações dos prejuízos causados pelos ataques dos lobos.
"Eles deviam atribuir um prémio anual, por animal, para se acabar, de uma vez por todas, com esta situação.
Serem os criadores de gado a alimentar os lobos e ainda obrigá-los a passar uma carga de trabalhos para receberem aquilo a que têm direito não é mesmo nada justo", insurgiu- se o autarca.
O problema é que não se adivinham dias melhores no horizonte dos homens do cajado do Soajo e das restantes localidades do Parque Nacional da Peneda-Gerês afectadas pelos incêndios.
"O que se vê a nascer nos montes é uma `morrinhice`. Está a vir pouca coisa. E, depois, acontece que a chuva leva tudo. Os animais até a terra arrancam", conta Manuel Petada, enquanto vigia as 32 vacas que tem a pastar no monte.
Ao longo do dia, os animais fazem uma refeição verde, essencialmente à base das ervas que vão encontrando nos montes. à noite, na hora da ceia, é-lhes servida a pastagem seca, nomeadamente feno e palha.
Algumas ervas vão-se encontrando, aqui e ali, no imenso e impressionante clarão dos montes do Soajo, mas a pastagem seca esfumou-se com os incêndios, o que obriga pastores e criadores de gado a abrir os cordões à bolsa para importar feno de Espanha.
Um fardo de feno (25 quilos) custa 3,5 euros e dá uma refeição para seis animais.
"Já comprei 500 e tal fardos para não deixar o gado morrer à fome", diz, conformado, Manuel Petada.
Em finais de Agosto, o governador civil de Viana do Castelo, Pita Guerreiro, garantiu que iria "sensibilizar" o Ministério da Agricultura para a necessidade de atribuir ajudas financeiras aos pastores do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) prejudicados pelos incêndios.
No entanto, e num ofício a que a Lusa teve acesso, o Ministério da Agricultura considerou que um auxílio estatal "não se afigura compatível" com a situação dos pastores do PNPG por não ser possível encontrar "enquadramento" nos apoios actualmente existentes para o sector.
O Ministério argumenta que, "no caso em apreço, os danos foram verificados sobretudo ao nível das pastagens naturais" e estas, "pelas suas características, possuem uma capacidade de regeneração após fogo que lhes permite, caso as condições climatéricas sejam adequadas, um restabelecimento do curto/médio prazo".
"A realidade é que, neste momento, a área ardida continua completamente de luto, sem quaisquer vestígios de pastagens", garantiu o presidente da Junta do Soajo, Manuel Barreira Costa, acusando o Governo de "faltar à palavra".
"As populações estão revoltadas com esta situação, embora não seja nada de que já não estivéssemos à espera, pois, connosco, é sempre assim: prometem, mas não cumprem", criticou.
Com o tempo quente a chegar, Venâncio Domingues não consegue esconder a apreensão e a angústia que lhe vão na alma, quando lança o olhar na direcção dos montes completamente nus, que em anos anteriores serviam de porto de abrigo aos seus animais.
"Lá em cima, o ar é mais fresco. E a cabra gosta muito de apanhar ar fresco, até porque já é um animal quente por natureza. Mas se lá não há pasto, os animais vão ter que ficar mais cá por baixo. Vai ser muito complicado", augura.
Mas Venâncio Domingues é um homem de cajado firme, do tipo antes quebrar que torcer, e confessa-se preparado para o que der e vier.
Hoje, faz diariamente mais de seis quilómetros para cima e para baixo com o seu rebanho. Amanhã, se for preciso, fará muitos mais.
"É a vida, o que é que se há-de fazer?", remata, num misto de resignação e de fé num futuro melhor.