Lobos são importantes para o ecossistema
Um biólogo norte-americano, responsável pela reintrodução de lobos no parque nacional de Yellowstone, afirmou hoje, em Castelo Branco, que só com tolerância e acções informativas é possível ter sucesso na recuperação dos ecossistemas naturais de um país.
"Um país tem de decidir se dá valor à sua herança natural.
Apesar de haver quem discorde, os lobos e os homens podem conviver, com acções educativas e uma gestão correcta" defendeu Daniel Stahler, durante o II Congresso Luso-Espanhol sobre o Lobo Ibérico a decorrer naquela cidade.
O parque nacional norte-americano de Yellowstone, o primeiro do mundo e um dos mais conhecidos do planeta, foi criado em finais do século XIX.
Situa-se nas Montanhas Rochosas, Oeste dos Estados Unidos, ocupando uma área de 890 mil hectares, o que equivale a cerca de dez por cento do território de Portugal continental.
Segundo o especialista, em 1920, por decisão do governo norte- americano, o lobo foi retirado do parque nacional de Yellowstone e reintroduzido 75 anos depois.
"Decidiram em 1920 que os lobos eram maus para o desenvolvimento do país, foi numa altura em que o país era ecologicamente ingénuo", disse Daniel Stahler à agência Lusa à margem dos trabalhos.
Em 1995, a decisão de Washington de fazer regressar os lobos ao parque, com a introdução de 14 animais, foi apoiada, segundo o biólogo, por 80 por cento da população norte-americana.
No ano seguinte mais 17 animais foram colocados no parque e actualmente a população de lobos ascende aos 150 exemplares, número que sobe até aos 800, na área em redor do parque de Yellowstone.
Nos EUA o lobo continua a gozar do estatuto de espécie protegida e ameaçada de extinção, embora os particulares estejam autorizados a proteger o gado e animais domésticos dos lobos.
"Mesmo em terrenos privados é proibido matar lobos a não ser que estejam a atacar gado, por exemplo" observou.
Tal como noutras partes do mundo, Daniel Stahler admite a existência, nos EUA de um segmento da população, nomeadamente caçadores e produtores de gado, que temem os efeitos do lobo.
"Embora, na realidade, os lobos matem gado pontualmente não o fazem com regularidade. Há muito mais baixas nas manadas e rebanhos por doenças, condições climatéricas e outros predadores para além dos lobos" garantiu.
Defendeu acções de comunicação de proximidade com as pessoas "informação factual sobre aquilo que o lobo faz", para ser possível a vivência entre os lobos e o ser humano.
"A tolerância social é importante, e ter a certeza que todos os envolvidos têm voz até se chegar a um entendimento. Sem entendimento não se pode chegar ao sucesso na recuperação e manutenção dos ecossistemas", concluiu.
Confrontado pela Lusa com a experiência norte-americana, Francisco Petrucci-Fonseca, biólogo da Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa, sublinhou que Portugal "não precisa de reintroduzir lobos como eles fizeram".
"A população [que, no total, se situa em cerca de 300 animais] está mais ou menos estável - a Norte do Douro está estável, a Sul está um pouco mais complicada a situação", observou.
Frisou, no entanto, que o caso norte-americano é um "bom exemplo" de como os lobos podem ser fonte de rendimento, nomeadamente ao nível turístico.
"Há pessoas nos Estados Unidos que atravessam o país só para irem ver os lobos", garantiu, embora admita que entre os dois países subsistem diferenças ao nível da morfologia do terreno e também aspectos culturais.
Apesar das diferenças, Petrucci-Ferreira, coordenador do "Grupo Lobo", tem na forja um projecto que leve "grupos de pessoas" a ver o lobo, no parque nacional da Peneda-Gerês e outros locais.
Mas, avisou "as pessoas para verem o lobo em Portugal vão ter de andar muito a pé, por muitos caminhos, andar muitas horas ao frio e, se calhar, acabam por não ver nada", disse.
Ressalvou que um parque nacional "não é um jardim zoológico como na maior parte das pessoas pensa".
"Têm de compreender o ecossistema. Não posso ir para o parque e ver os lobos a correr, aos pulos, até porque a vegetação aqui é diferente e esconde os animais. Mas gostaria que fosse possível lançar o projecto já em 2006, é uma forma de chamar a atenção às pessoas para o lobo e para a conservação da espécie", concluiu.