Loja mais antiga da Baixa de Lisboa esconde o segredo do "bolo-rei"
A loja mais antiga da Baixa lisboeta, situada na Praça da Figueira, esconde há mais de cem anos o segredo da receita original do "bolo-rei", trazido de França pelo proprietário do na segunda metade do século XIX.
Fundada em Dezembro de 1829 por Baltazar Rodrigues Castanheiro, a Confeitaria Nacional, que celebra 175 anos, mantém a decoração original, com tectos pintados e espelhos, que cobrem também as paredes e os balcões e montras onduladas, debruadas a dourado.
A Confeitaria Nacional conviveu com monarcas e republicanos, assistiu à ditadura e chegou aos dias de hoje sempre gerida pela mesma família. Vai já na quinta geração de proprietários.
"Os primeiros anos da jovem confeitaria passaram-se em constantes lutas políticas e partidárias entre Dom Pedro e Dom Miguel.
Vendeu, porém, os seus produtos aos dois partidos com a mesma solicitude, adoçando a ambos as horas amargas e de triunfo", descreve um folheto da Confeitaria.
Nomeada Fornecedora da Casa Real em 1873, por Dom Luís I, a Confeitaria Nacional é mais tarde a predilecta de figuras sociais e políticas, como Salazar, recebendo das mãos do presidente Marechal Carmona o diploma de Casa Centenária da Associação Comercial de Lisboa, em 1940.
Com a morte do fundador, sucede-lhe (em 1869) o filho, Baltazar Rodrigues Castanheiro Júnior, que viaja frequentemente para o estrangeiro, trazendo de Paris e Madrid mestres confeiteiros, além da receita do "bolo-rei".
O próprio "bolo-rei" não escapou às alterações políticas do país. Após o fim da monarquia, chegou a ser proposta em sessão parlamentar a alteração do nome para "bolo-república". Mas a ideia não vingou.
A receita continua a ser o segredo mais bem guardado, sendo apenas do conhecimento do actual proprietário e do pasteleiro, que ali trabalha há mais de 40 anos.
"Muito poucas pessoas sabem o segredo, que tem passado de pais para filhos. Por isso se vai mantendo a qualidade", afirmou à Lusa o gerente, Luís Silva.
O "bolo-rei" distingue-se pelo "sabor, que é diferente de todos os outros".
"O nosso bolo é mais leve e macio do que o +bolo-rei+ normal.
Não leva torrões de açúcar e o excesso de frutas na cobertura. Tem uma decoração mais simples", descreve.
Segundo os proprietários, o "bolo-rei", que está à venda entre o último fim-de-semana de Setembro e o Domingo de Páscoa, tem "desde sempre extraordinária procura", mas é na época natalícia que as vendas aumentam.
"As nossas previsões apontam para duas toneladas de +bolo-rei+ vendidas, por dia, nos dias 23 e 24", afirma Luís Silva.
Além das novidades na pastelaria, a Confeitaria Nacional foi também inovadora na utilização das novas tecnologias e na assistência aos trabalhadores.
"Foi instalado um dos primeiros telefones de Lisboa, entre a fábrica e a confeitaria, na Rua da Betesga. Ainda hoje se mantém esse telefone privativo, com um número simbólico, sem ligação para a rede", explica o folheto do estabelecimento.
O bisneto do proprietário, Rafael Castanheiro Viana, criou na década de 40 um posto médico, balneários e biblioteca, regalias inéditas na época.
Foi também este proprietário quem encomendou o logótipo - a imagem de um pasteleiro - que ainda hoje é utilizado nas embalagens da Confeitaria Nacional.
A pastelaria recupera hoje os traços do passado, com a abertura recente do primeiro piso da loja, encerrado há mais de cem anos.
Segundo o gerente, não foi feita qualquer alteração, à excepção da escada, que foi construída de propósito, já que antigamente o acesso ao primeiro andar se fazia pela escada do prédio.
"Tudo é original, desde o chão, às aduelas das portas e tectos", afirma Luís Silva.
Na Confeitaria Nacional, o bolo-rei, os bolinhos secos, de ovo e de amêndoa já adoçaram a boca a mais de cem milhões de pessoas.