Loja Sant’Anna da Rua do Alecrim despejada para dar lugar a hotel

A loja da Sant’Anna na Rua do Alecrim, em Lisboa, corre o risco de fechar as portas numa altura em que está prestes a completar cem anos de existência. A loja integra uma empresa considerada a "última fábrica de azulejos 100 por cento artesanais" da Europa. Mas o grupo Visabeira, dono do imóvel onde se encontra o estabelecimento, tem licença camarária para ali construir um hotel e emitiu uma ordem de despejo a todos os seus inquilinos. A administração e os transeuntes lamentam o encerramento que, dizem, vai enfraquecer a cultura tradicional e prejudicar o turismo.

João Ferreira Pelarigo, Nuno Patrício - RTP /
Nuno Patrício - RTP

A operar desde 1741, a fábrica de cerâmica Sant'Anna instalou uma loja na Rua do Alecrim no ano de 1916. Prestes a atingir o centenário, parece que não vai atingir o marco histórico.

A loja da Sant’Anna na Rua do Alecrim, em Lisboa, corre o risco de fechar as portas numa altura em que está prestes a completar cem anos de existência. A loja integra uma empresa considerada a "última fábrica de azulejos 100 por cento artesanais" da Europa. Mas o grupo Visabeira, dono do imóvel onde se encontra o estabelecimento, tem licença camarária para ali construir um hotel e emitiu uma ordem de despejo a todos os seus inquilinos.

O grupo Visabeira, proprietário do espaço onde está inserida a loja, emitiu uma ordem de despejo para proceder à construção de um hotel dedicado a Bordallo Pinheiro.

O diretor comercial da Sant'Anna diz que a notificação chegou pelo senhorio, que enviou "uma carta a anunciar o despejo da loja". Depois de recebida a notificação, diz Francisco Tomás, a administração da loja contatou o proprietário do espaço "para tentar chegar a algum entendimento sobre o assunto".

De acordo com o diretor comercial da empresa, da parte dos proprietários do imóvel "nunca foi dada a hipótese de chegar a algum entendimento".



Segundo ele, a resposta do grupo Visabeira à Sant'Anna foi que "a ordem de despejo está dada e o edifício vai ter de sofrer uma série de alterações e que não é possível a permanência da loja no local".

Francisco afirma que os responsáveis pela loja estão a ver "o que é que é possível fazer, junto de várias entidades, para tentar que a Sant'Anna permaneça no local", admitindo que esta é "uma tarefa muito difícil".

Contudo, assume que a loja tem recebido "um apoio extraordinário da parte dos clientes, não-clientes e admiradores do azulejo português e da Sant'Anna". Francisco acredita que o despejo vai enfraquecer o turismo em Lisboa e as rotas da cultura na capital.



O encerramento da loja vai ter "impactos negativos nas vendas", destaca o diretor. A possibilidade de o fecho por em causa os postos de trabalho das cerca de 30 pessoas que trabalham "direta e indiretamente" para a Sant'Anna "é uma coisa que ainda não está em cima da mesa", sustenta.

"Já passámos por várias crises ao longo da nossa história, são quase 300 anos de existência, e sobrevivemos a todas e continuamos cá", sublinha Francisco, adiantando que "não há de ser isto a deitar abaixo" a empresa.
"Qualquer dia Lisboa não é nossa"
Para quem conhece a loja, e para quem passa na Rua do Alecrim, o despejo é visto como "uma pena" porque é uma loja que tem quase um século de história.

"Há que manter as nossas tradições, porque senão qualquer dia Lisboa não é nossa", diz uma das pessoas que passam em frente à loja e reconhecem o valor que esta tem para a cidade.

O facto de ser uma casa com história, quase centenária, leva os transeuntes a lamentar o encerramento do espaço. Turistas e transeuntes acreditam que a rota do turismo de Lisboa, e do país, vai ficar mais pobre com a perda desta loja.



Os clientes, e aqueles que por lá passam, lamentam o fecho das portas da loja Sant'Anna. Outros questionam-se quanto à necessidade de se construir um hotel num espaço que tem marca na rota cultural.

"Há tantos sítios para construir hotéis em Lisboa, porque é que terá que ser aqui?",  pergunta uma senhora, que acrescenta não achar "nada bem" o projeto de conversão do espaço em hotel.

Ainda assim, há quem acredite que o "tempo é um bom auxiliar destas questões".
Reflexo lá fora
Não é apenas em Lisboa - e em Portugal - que o despejo da loja e a alegada construção de um hotel é notícia. O assunto, que diz respeito à "última grande fábrica de azulejos e faianças artesanais da Europa", tem também eco lá fora.

Trata-se de uma empresa onde os produtos adquirem "a qualidade das grandes fábricas de reconhecido renome mundial", tendo como resultado grandes volumes de exportação.

Os azulejos e as faianças artesanais Sant'Anna são comercializados por todo o globo, atraíndo milhares de turistas à loja.

Daí que um jornalista alemão, correspondente em Portugal de uma publicação suíça, tenha interesse em escrever um artigo sobre o despejo.



Thomas Fischer diz que em Lisboa, enquanto destino turístico, os viajantes procuram lugares autênticos e onde a tradição é aliada ao turismo.

Havendo "um conflito desta natureza", com o encerramento de uma loja tradicional, as pessoas interessadas em cultura e artesanato querem saber o que se passa.

Um turista alemão, à passagem por Lisboa, afirmou também ser "uma pena" este desfecho, uma vez que "existem muitos hoteis em Lisboa". Sugeriu ainda que este tipo de espaços seja protegido.
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