Mães da Jamba aprendem com a AMI a alimentar os seus filhos
Kacuarta Tchissingue, com apenas dois anos e sinais visíveis de desnutrição, foi a primeira criança a ser atendida na Unidade Nutricional da Jamba, que a organização não governamental portuguesa AMI abriu neste município da província angolana da Huíla.
No primeiro dia depois da inauguração desta unidade, instalada no antigo clube de vídeo da cidade, o Sol ainda estava a despontar no horizonte e eram já muitas as mulheres que aguardavam junto à porta, na esperança de verem os filhos integrados no programa especial de nutrição que a AMI iniciou no final de Novembro naquele município do sul de Angola.
Uma reunião com autoridades tradicionais e religiosas locais permitiu espalhar rapidamente a notícia da abertura da unidade nutricional, especialmente vocacionada para apoiar crianças com menos de cinco anos do município da Jamba que apresentem problemas de desnutrição moderada.
Um inquérito realizado em finais de Agosto revelou que este problema afecta 11 por cento dos menores de cinco anos, ou seja, cerca de 2.500 crianças, das quais a AMI espera poder ajudar cerca de mil.
"O maior problema nesta região não é a falta de alimentos, mas a falta de uma educação alimentar da população", afirmou Vera Carrilho, responsável pela unidade nutricional, em declarações à Agência Lusa.
Segundo a voluntária da AMI, os problemas alimentares da população da Jamba resultam de "uma alimentação monótona, quase totalmente baseada na fuba (farinha de milho), que não possui proteínas".
"Eles quase não comem leguminosas (feijão, grão, ervilhas), não aproveitam o leite das vacas e das cabras, não comem carne nem peixe", acrescentou.
Estes problemas resultam do facto de as populações locais apenas cultivarem o milho, não matarem o gado bovino porque precisam dele para cultivar os campos e apenas matarem as cabras em ocasiões especiais, como casamentos ou funerais.
"Pode parecer mentira, mas já encontrei mulheres que não davam leite de vaca aos filhos porque simplesmente não sabiam como se ordenha uma vaca", revelou Vera Carrilho.
Esta falta de conhecimentos básicos pode resultar do facto de as jovens mães terem passado uma grande parte das suas vidas a fugir ao conflito armado, o que desmembrou as famílias e impediu a passagem de conhecimentos por parte das suas progenitoras.
O facto de terem depois vivido em centros de deslocados onde a comida lhes era fornecida por organizações humanitárias, pode ter também contribuído para uma ausência de conhecimentos ao nível alimentar.
Para tentar inverter esta situação, um dos objectivos da unidade nutricional passa por promover a "educação alimentar das populações, ensinando às mães como podem alimentar melhor os filhos utilizando o que a natureza coloca à sua disposição".
É essa a intenção de Vera Carrilho todos os dias quando fala com o grupo de mães cujos filhos foram seleccionados para integrarem o programa de apoio nutricional promovido pela AMI.
"Não queremos só dar comida, queremos também promover a educação destas pessoas, ensinando como devem dar banho aos filhos, explicando as causas da desnutrição, mostrando como se confeccionam as papas especiais que levam para casa", salientou.
Apesar de todos os dias comparecerem na Unidade Nutricional da Jamba várias dezenas de crianças, apenas algumas delas preenchem os requisitos definidos para a desnutrição moderada e, por isso, só essas podem ser inscritas no programa da AMI.
Cada uma dessas crianças leva para casa uma mistura de soja, óleo, açúcar e leite em pó, dividida em doses diárias de 350 gramas, "o que é suficiente para dar à criança entre três e cinco refeições por dia".
Como a maior parte destas crianças tem de percorrer grandes distâncias para chegar à Jamba, levam alimentos para sete dias, pelo que apenas têm que se deslocar à unidade nutricional uma vez por semana.
Para evitar que outros membros da família venham a alimentar-se desta papa especialmente estudada para crianças com desnutrição moderada, a campanha da AMI prevê o apoio nutricional até cinco membros da família da criança beneficiária.
Assim, cada um dos membros da família tem direito por semana a uma quantidade definida de leite em pó, milho, feijão, açúcar e sal iodado.
O programa de recuperação nutricional das crianças da Jamba, financiado em 500 mil euros pelo Banco Totta Açores, atende ainda grávidas que necessitem de apoio nutricional e mães lactantes que não estejam em condições de amamentar os filhos.
Francisco Ribeiro