Maioria dos alunos tem uma reprovação de ano no currículo escolar

No dia em que se conhecem os números do desempenho das escolas portuguesas, sabe-se também que é uma minoria de alunos aquela que consegue um percurso "limpo" no 3.º ciclo e secundário, ou seja, sem reprovação em qualquer ano. De acordo com os dados do Ministério da Educação, mais de 250 mil estudantes chumbaram pelo menos um ano letivo ou num dos exames nacionais. Mas os dados dizem-nos também que as notas dos alunos do secundário nos exames nacionais de 2019 melhoraram em relação a 2018, com os colégios a registar uma subida maior do que as escolas públicas. Entretanto, 20 escolas inflacionaram as notas dos alunos do secundário no que, de acordo com a análise da Lusa, é uma prática mais habitual entre colégios.

RTP com Lusa /
José Coelho, Lusa

São agora conhecidos os resultados do desempenho de escolas e alunos com base nos exames do ano passado, sendo de registar que se verificou uma melhoria nas notas dos alunos do secundário quando comparada com 2018. Uma primeira análise diz-nos que os colégios registaram uma subida maior (média dos estudantes passou de 12,16 para 12,69 valores) do que as escolas públicas (de 10,77 para 10,95).


De acordo com uma análise feita pela agência Lusa a estabelecimentos de ensino onde se realizaram pelo menos uma centena de provas, com a melhoria geral das classificações aumentou também o número de estabelecimentos de ensino com média positiva. Em 514 escolas, 410 obtiveram positiva e 104 "chumbaram".
Público versus privado

Comparando ensino privado e público, os colégios voltaram a destacar-se em termos percentuais, com 90,9% dos 77 colégios a terem média positiva. Já entre as 437 escolas públicas, 340 (77,80%) obtiveram médias iguais ou superiores a 10 valores.
É de notar, no entanto, que se realizaram-se menos provas nos colégios, com os alunos do privado a fazerem pouco mais de 25 mil exames, enquanto nas escolas públicas se realizaram 196.427, quase oito vezes mais.

O Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto, é de novo a escola com a melhor média do ranking da Lusa, que excluiu os estabelecimentos de ensino com menos de 100 provas, seguindo-se o Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga, e o Colégio Moderno, em Lisboa.

A primeira escola pública a surgir nesta lista é a Básica e Secundária Dr. Serafim Leite, em São João da Madeira, e ocupa o 32.º lugar.
Apenas Filosofia teve média negativa
Das 17 disciplinas analisadas, apenas Filosofia registou média negativa (9,76 valores).

Matemática B, Desenho A, Espanhol e Geometria Descritiva A lideraram a lista pelo lado das melhores médias com a primeira disciplina a obter 14,63 valores e as restantes com médias na casa dos 13 valores.

Já as disciplinas que levaram mais alunos a exame aparecem a meio da tabela: a média das mais de 55 mil provas a Português foi de 11,84 valores (7ª melhor nota), seguindo-se os mais de 33 mil exames de Matemática A com uma média de 11,52 valores (9.º lugar no 'ranking').

Física e Química A foi a terceira disciplina com mais exames realizados - mais de 26 mil - e a média das provas foi de 10,04 valores, sendo por isso a última disciplina com média positiva no ano passado.
Maioria não consegue um “currículo limpo”

A análise ao indicador "Percursos Diretos de Sucesso", criado pelo Ministério da Educação, permite também perceber que a maioria dos alunos do 3.º ciclo e do secundário "chumbou" pelo menos um ano letivo ou num dos exames nacionais. Um insucesso que atingiu mais de 250 mil jovens, ou seja, a maioria.

A maioria dos alunos que deveria ter terminado o 3.º ciclo ou o ensino secundário no ano passado não o conseguiu fazer sem reprovar um ano ou ter negativa em, pelo menos, um dos exames nacionais: num universo de 456.368 estudantes, apenas 201.937 (44%) tiveram o chamado “percurso direto de sucesso”.

De acordo com os dados, a situação é mais problemática nos escalões superiores, já que apenas 41,22% conseguiram fazer o secundário sem reprovar. Ou seja, dos 180.317 mil estudantes que entraram para o 10.º ano em 2016/2017, menos de 75 mil (74.337) conseguiram terminar o secundário sem reprovar.

Apesar de tudo, verificou-se uma melhoria em relação ao ano anterior, já que a percentagem dos “percursos de sucesso” subiu mais de dois pontos percentuais, de 39% para 41,22%.

Em relação aos estabelecimentos escolares, no que respeita a este indicador a grande maioria não consegue que o sucesso seja a regra: num universo de 550 escolas apenas em 102 a maioria dos alunos do secundário fez os três anos sem nunca reprovar e com positiva nos exames nacionais. Nas restantes 448 escolas, a maioria dos estudantes tem um chumbo no seu currículo.

E também no 3.º ciclo aumentou a percentagem de alunos com “percursos diretos de sucesso”: subiu dois pontos percentuais, de 44% para 46% no ano passado, apesar de serem apenas 127.600 estudantes (entre 276.051) aqueles que entraram para o 7.º ano – no ano letivo de 2016/2017 – concluindo aquele ciclo sem nunca "chumbar" um ano ou ter negativa num exame nacional.

No 3.º ciclo, também são uma minoria (379 em 759) as escolas que conseguem que, pelo menos, metade dos seus alunos tenha um percurso de sucesso e concluam os três anos no tempo ideal e positiva nos exames nacionais.
Cada vez mais escolas a inflacionar notas

Vinte escolas inflacionaram as notas dos alunos do secundário no que, de acordo com a análise da Lusa, é uma prática mais habitual entre colégios.

Desde o ano letivo de 2014/2015 que 20 escolas secundárias dão sempre notas mais altas do que deveriam, revelam dados do Ministério da Educação numa análise que compara as notas dos alunos pelo trabalho desenvolvido ao longo do ano em sala de aula e os resultados obtidos nos exames nacionais.

Para identificar as escolas que estão a dar notas acima do espetável, o Ministério compara as classificações internas atribuídas pela escola com as notas atribuídas por todas as outras escolas do país a alunos que tiveram resultados semelhantes nos exames nacionais.

Uma vez que este procedimento pode permitir a um aluno passar à frente no acesso ao ensino superior, desde 2019, os inspetores da Inspeção-Geral da Educação e Ciência GEC instauraram duas dezenas de inquéritos por terem sido detetadas escolas com uma concentração "de um conjunto de classificações anormalmente elevadas", revelou o ME.

Este trabalho originou 57 processos disciplinares, dos quais cerca de duas dezenas estão em fase de conclusão, estando os restantes a correr os seus termos, segundo informações avançadas à Lusa pelo ME. Entretanto, a IGEC iniciou um conjunto de inspeções a cem escolas secundárias.
Mais inflação de notas no privado

Os dados do Ministério da Educação mostram que em relação ao ano anterior houve um aumento de dois estabelecimentos de ensino a inflacionar as notas, passando de 18 para 20. A lista elaborada pela Lusa mostra que inflacionar as notas continua a ser uma prática mais habitual entre os privados, que são 15 dos 20 estabelecimentos detectados.

Habitualmente, os alunos têm piores desempenhos quando chegam às provas. No ano passado, segundo uma análise da Lusa, registou-se uma diferença média de cerca de três valores numa escala de zero a 20.

No ano passado, a média dos mais de 25 mil exames realizados pelos alunos dos colégios foi de 12,69 valores enquanto a nota interna dada pelos professores foi de 15,15 valores. Nas escolas públicas, a média dos quase 200 mil exames foi de 10,95 e a nota interna foi de 13,71 valores.

Mas também existem estabelecimentos de ensino que, invariavelmente, dão notas mais baixas do que os alunos mereceriam tendo em conta as medias nacionais, sendo esta uma prática mais visível entre as escolas públicas.

No ano passado, houve 14 escolas que deflacionaram as notas dos seus alunos, menos duas do que as identificadas em 2018.
Raparigas com melhor desempenho

As notas dos alunos do ensino secundário nos exames nacionais de 2019 subiram em relação ao ano anterior e as raparigas voltaram a ter melhores desempenhos, segundo a análise da Lusa.

As raparigas obtiveram melhores resultados finais tanto no ensino secundário como nos exames nacionais em 2019, destacando-se em Matemática B e Desenho. Já os rapazes foram melhores a Geometria Descritiva e Inglês.

As alunas tiveram uma média de 11,27 valores nos exames enquanto os rapazes tiveram 11 valores, o que representa uma melhoria de cerca de duas décimas em ambos os casos em relação ao ano anterior.

Também na classificação interna final as raparigas tiveram mais sucesso, já que a média de todas as notas foi de 14,1 valores, enquanto a média dos rapazes foi de 13,6 valores.

Os números revelam que a classificação interna foi sempre mais alta do que os resultados dos exames, à exceção de Matemática B. Tanto rapazes como raparigas conseguiram ter melhores resultados nos exames de Matemática B do que na nota atribuída pelo trabalho feito ao longo do ano em sala de aula: elas subiram, em média, 1,2 valores e eles 0,6 valores.

E Matemática B foi também a disciplina em que as raparigas mais se destacaram nos exames, obtendo 15,06 valores contra 13,86 valores dos rapazes. As alunas também tiveram menos dificuldades a Matemática A e a Desenho A.

Já os rapazes saíram-se muito melhor no exame de Inglês (média de 13,10 valores), contra uma média negativa das raparigas (9,63 valores).

No ano passado, a única disciplina em que tanto alunos como alunas obtiveram média negativa foi Filosofia: as raparigas tiveram 9,40 e os rapazes 9,95. Os alunos "chumbaram" também a Literatura Portuguesa e Física e Química A.
Profissional com 10% de abandonos

O ensino profissional parece estar a tornar-se numa opção cada vez mais atrativa para os jovens. No ano letivo de 2017/2018 havia mais de 110 mil alunos inscritos em cursos profissionais, mais de dois mil do que no ano anterior.

De registar, entretanto, que um em cada dez desses alunos desistiu de estudar antes de terminar o ensino obrigatório, segundo uma análise ao percurso de mais de 30 mil estudantes ao longo dos três anos: 11,93% de 3.621 alunos, segundo uma análise que contabilizou cerca de 30 mil dos pouco mais de 100 mil estudantes que em 2017/2018 estavam a frequentar o ensino profissional.

No entanto, a maioria dos 30.333 alunos que escolheram um curso do ensino profissional em 2015/2016 conseguiu concluir os estudos dentro do tempo previsto, ou seja, dois em cada três alunos (19.030 - 62%) fizeram um percurso de sucesso e conseguiram terminar o curso profissional em 2017/2018 sem nunca chumbar ao longo dos três anos.

Já um grupo mais pequeno de 6.300 alunos (20%) reprovou ao longo do seu percurso académico, mas continuou inscrito na via profissional, e outros 4,5% decidiram inscrever-se noutra modalidade do ensino secundário (1.382 estudantes).
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