Marcha do Orgulho LGBTI+ junta centenas no Porto e alerta para "retrocesso" de direitos
A 21ª Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto juntou, na tarde de hoje, centenas de pessoas que quiseram "lembrar para não repetir" a morte de Gisberta Salce, assassinada em 2006, e alertar para "o retrocesso" nos direitos dos transexuais.
Sob o lema "Por Gisberta, Por um Abril que ainda não aconteceu!", a marcha, que juntou, perto das 15:30 mais de 300 pessoas na Praça da República e vai percorrer as ruas do centro do Porto até ao Largo Amor de Perdição, pretende ser um "grito de alerta" para que não aconteçam "novas Gisbertas".
"Esta marcha tem uma parte feliz, que é assinalar os 20 anos da primeira marcha e uma menos feliz, mas importante, que é recordar a Gisberta Sales, lembrar para não repetir", explicou à Lusa Luís Torres, da comissão organizativa da marcha.
Gisberta Sales era uma mulher transexual, de nacionalidade brasileira, em situação de sem-abrigo, que foi assassinada por um grupo de jovens, com idades entre os 12 e os 16 anos, no Porto, em 2006.
"A Gisberta morreu por ser como era. Apenas e só isso. Foi um crime de ódio, de ignorância, que não pode ser esquecido porque se for esquecido nada se vai aprender com ele e haverá mais Gisbertas", disse à Lusa Ana Castro, participante na marcha.
Além de recordar Gisberta, a marca pretender ser "um grito de alerta" para aquilo que a organização considera ser "um retrocesso de direitos" para a comunidade LGBTI+: "Isto é preciso ser dito, é preciso fazer este alerta", apontou Luis Torres.
"Têm sido aprovadas leis que são um retrocesso de direitos. E além destas leis há o contexto da crise da saúde, na habitação, que vão criar novas Gisbertas. Pessoas em situação frágil, sem apoios, sem acesso à saúde e em situação de sem-abrigo", alertou.
Além da concentração e caminhada pela cidade, esta iniciativa conta com a presença de serviços de rastreio e prevenção de saúde sexual, artistas `queer`, música, e "muita animação garantida".
"Pode parecer uma festa, e é uma festa, mas é muito mais do que isso. Temos que encarar estas manifestações como chamadas de atenção e como prova de que todos têm o seu lugar na sociedade", salientou à Lusa um dos marchantes, João Anjos.
Para aquele marchante, "orgulhosamente gay" este tipo de iniciativas é também "uma forma de educar" a sociedade: "Há muita ignorância, desconhecimento da realidade sexual, sobre o que são opções, manias ou taras. Não podemos voltar ao tempo em que tudo era tabu", alertou.
A Marcha do Orgulho LGBTi+ do Porto íntegra "diversas associações e coletivos que se quiserem juntar e mostrar que ainda há muito para fazer", segundo a organização.
"Este momento é aberto a todos que queiram participar, celebrar, refletir sobre este tipo de temáticas", garante a organização.
Para alguns dos turistas que atravessavam a Praça da República perto do inicio da Marcha, foi "uma surpresa" depararem-se com este tipo de manifestação:"Ficamos surpreendidos porque não vimos nenhuma referência nos guias da cidade e uma marcha já com 20 anos devia ter destaque", referiu à Lusa Carl, turista alemão.
"Este tipo de iniciativas é comum na Europa, não pensei que em Portugal também fosse e há tanto tempo", admitiu.
Questionado sobre se conhecia a má sorte de Gisberta, Carl referiu que não e quis saber a história, que lhe foi contada por um grupo de manifestantes: "É muito triste uma morte causada pela ignorância de alguém. Infelizmente, não será caso único", comentou.
A Marcha termina no Largo Amor de Perdição onde, pelas 18:00, haverá intervenções e momentos de animação.