Mário Soares ataca forte Cavaco Silva
Antes, no início da sua intervenção, Soares referiu-se às eleições de 22 de Janeiro como "o primeiro acto eleitoral", dizendo que a sua campanha "está em crescendo", enquanto Cavaco Silva "começa a sentir-se preocupado".
"Ele próprio está num estado de nervosismo. Deram-lhe um guião para falar o menos possível para não meter o pé na poça, mas a verdade é que cada vez que ele fala mete o pé na poça", apontou Mário Soares.
No seu discurso, o candidato apoiado pelo PS procurou também dividir o eleitorado do PSD e do CDS-PP, dizendo que Cavaco Silva é apoiado "não pelo PPD mas pelo PSD, não pelo PP mas pelo CDS".
"Cavaco Silva é um político com vergonha da política. É um líder dos partidos que o apoiam, que foi eleito deputado e nunca assumiu o mandato e que como ministro das Finanças de Sá Carneiro (1979/1980) distribuiu dinheiro numa época em que o país não tinha condições para isso", atacou ainda o ex-Presidente da República.
Mário Soares referiu-se com ironia ao papel do presidente do PSD, Marques Mendes, nesta campanha presidencial.
"Deve ser desagradável para um líder político como Marques Mendes - homem inteligente e pessoa respeitável - ser solicitado por Cavaco Silva para dar apoios e assinaturas e depois ouvir dizer esconda-se aí que eu não quero que você apareça", disse, provocando palmas e risos na sala.
"Se não é um político para que se candidata Cavaco Silva a Presidente da República, porque ser Presidente da República é o cargo mais eminentemente político. Cavaco Silva tem uma espécie de computador que está programado para primeiro-ministro", apontou ainda o ex-chefe de Estado.
Na sua intervenção, Soares acusou Cavaco Silva de se ter demitido do Governo de Sá Carneiro antes deste falecer no acidente de Camarate (em Dezembro de 1980) e de ter recusado integrar o executivo da Aliança Democrático do seu sucessor Pinto Balsemão.
"Depois da morte de Sá Carneiro, quando era preciso unir as fileiras do Governo, ele [Cavaco Silva] não quis entrar no Governo [de Pinto Balsemão]. Toda a gente sabe isso e toda a gente sabe que depois disso ele hibernou para a política", referiu ainda.
O ex-Presidente da República afirmou que Cavaco Silva "nunca prestou a devida homenagem" ao seu antecessor na presidência do PSD, Mota Pinto, e citou o ex-ministro das Finanças Miguel Cadilhe, quando este considerou Cavaco Silva "o pai do monstro", ou seja, o nível de despesa pública.
Em Torres Vedras, Mário Soares teve mais uma das suas tradicionais "gaffes", dizendo que Cavaco Silva "hibernou sempre em tempo de vacas gordas" - o objectivo era dizer `vacas magras" - e que o ex-presidente do PSD "tem de explicar porque é que está tão ávido para ser de novo Presidente da República".
Antes de Mário Soares discursaram a eurodeputada socialista Edite Estrela e o ex-secretário de Estado do Poder Local e deputado socialista José Augusto Carvalho, que sobre Soares disse: "Já o vimos comer, já o vimos rir, já o vimos ralhar, já o vimos com chapéus bizarros, enfim já o vimos homem".
José Augusto Carvalho também citou a fadista Amália Rodrigues em abono do candidato presidencial do PS.
"Amália disse que ele tem a cara que a gente gosta. O rosto é o espelho da alma e o seu rosto traduz o melhor da alma portuguesa", afirmou o ex-secretário de Estado dos governos de António Guterres.