Marita, a história de um exílio em Argel que durou 40 anos

Marita esteve entre os primeiros portugueses que procuraram refúgio na Argélia para fugir à ditadura de Salazar, um exílio que acabou por durar 40 anos, porque quis acautelar futuro dos filhos.

Vera Magarreiro, Agência LUSA /

Esta portuguesa, que hoje se sente "estrangeira" em Portugal, integrou o grupo de cerca de 40 exilados portugueses recebido na terça-feira, num hotel de Lisboa, pelo presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, no âmbito da sua visita oficial de três dias a Portugal.

Maria Adelaide Ribeiro, "Marita" para os amigos, contou à Agência Lusa a história do seu exílio na Argélia, que começou a 29 de Janeiro de 1963, recordando a forma "incrível" como os argelinos ajudavam os portugueses a encontrar trabalho e casa, quase sempre "nos melhores bairros de Argel".

O 25 de Abril em Portugal colocou-a "entre a espada e a parede", porque os seus filhos estudavam no liceu francês em Argel e em Portugal não tinha casa nem emprego.

Optou por ficar, devido à "obsessão de não desequilibrar" os filhos, vendo partir todos os outros exilados portugueses.

Quando deixou Portugal, só o pai sabia. "Sente-se uma tristeza muito grande. É muito duro, há sempre algo que fica para trás. As lágrimas corriam-me sem eu querer", diz.

"Três semanas depois de eu partir, o meu pai teve um enfarte", conta, lembrando que o que mais lhe custou nos tempos de exílio foi saber que o pai estava a morrer sem poder vir a Portugal vê-lo pela última vez.

Argel foi o seu último destino de exílio, mas antes passou pela Alemanha e por Kinshasa (actual República Democrática do Congo), sempre a acompanhar o marido, português de nacionalidade nascido em Angola, médico e que foi um destacado dirigente do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e o primeiro ministro da Saúde angolano.

A luta de libertação em Angola levou-lhe o marido para as matas, em 1969, e Marita decidiu ficar em Argel. Se não fosse por causa dos quatro filhos, garante, teria seguido o companheiro na luta pelo seu ideal político. A separação, afastou-os para sempre.

Sem o marido, Marita viu-se forçada a procurar emprego para sustentar os quatro filhos e começou a trabalhar na Direcção Geral de Estatísticas argelina, onde ficou 15 anos.

Em 1976, ajudou a instalar a Embaixada de Portugal em Argel, onde começa a trabalhar onde fica até 2003, altura em que se reforma e regressa a Lisboa.

Marita foi secretária de todos os embaixadores, foi tradutora/intérprete da Embaixada, mas, realça, "fazia tudo o que fosse preciso".

"Agora já não existe este espírito. Para fazer o serviço que me competia, contrataram agora duas pessoas", ironiza.

Do dia em que chegou a Argel, recorda o "movimento", em pleno Ramadão, e o cheiro da +chorba+ (prato típico do norte de África) ao final do dia, quando terminava o período de jejum.

"Fiquei logo envolvida por aquele ambiente", conta.

Marita lembra ainda o convívio nas ruas entre as poucas crianças argelinas do bairro onde vivia, que depressa começaram a falar português, e a facilidade com que os seus filhos aprenderam árabe.

As dificuldades de um Estado recente implicavam, muitas vezes, dois ou três meses de salários em atraso. Viveu com dificuldades e por isso não esquece a disponibilidade dos comerciantes do mercado onde habitualmente ia em venderem-lhe fiado, quando percebiam que, por falta de dinheiro, Marita comprava menos fruta ou legumes.

Esta solidariedade dos argelinos foi um dos aspectos que mais a marcou. "Os vizinhos são solidários, há uma grande disponibilidade para ajudar", diz, destacando que, talvez por isso, não seja habitual ver pessoas a morar na rua como acontece em Portugal.

Marita recorda ainda os tempos mais conturbados dos atentados terroristas na Argélia, na década de 90, mas garante que nunca teve medo.

Quando ia às compras, sentia-se protegida pelos comerciantes, que insistiam para que entrasse nas lojas em vez de ficar na rua, de costas, a escolher as compras.

No entanto, diz que sempre cumpriu o recolher obrigatório, entre as 21:00 e as 06:00. "Quando havia casamentos ou outras festas, ficávamos até às seis da manhã", brinca.

Os filhos foram regressando a Portugal para frequentarem o ensino superior, à excepção de um que foi estudar para Paris, onde acabou por ficar.

Aos 70 anos reformou-se, "com alguma tristeza", mas reconhece que "é preciso dar o lugar aos mais novos".

Regressa então a Portugal, desta vez com a motivação acrescida de cuidar dos oito netos.

Foi viver para a casa que herdou do pai, junto ao Castelo de S. Jorge, em Lisboa. As obras de recuperação no prédio incluíram um espaço para acolher os amigos argelinos durante as férias.

Além dos amigos, Marita sente também saudades do tradicional couscous", que consegue encontrar em Portugal mas, lamenta, "não é a mesma coisa". Hoje, além de ir buscar os netos à escola, ocupa os seus dias a praticar desporto, "natação e muita ginástica" e a escrever as suas memórias, que, diz, não são para publicar, mas apenas para deixar aos filhos.


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