Médico ucraniano feliz por ver reconhecidas habilitações

O médico ucraniano Ihor Afanas, em Portugal há cinco anos, confessou hoje que o melhor momento que viveu depois de decidir emigrar foi o reconhecimento das habilitações, que permitiu o reinício da carreira e o reencontro com a mulher.

Agência LUSA /

"Quando vim para Portugal, há cinco anos, nunca pensei que voltaria a ser médico. Fiquei muito feliz quando me candidatei ao projecto e reiniciei os estudos", disse à Agência Lusa o médico ucraniano, que hoje participou num debate realizado na Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito do projecto de reconhecimento de habilitações de médicos imigrantes.

Na Ucrânia, Ihor não tinha trabalho, por isso decidiu emigrar ilegalmente e escolheu Portugal. No primeiro ano, trabalhou na construção civil e teve, segundo contou, uma vida difícil por causa da língua, da ilegalidade e da ausência da mulher.

O médico pretendia apenas ficar meia dúzia de anos e regressar à Ucrânia, mas candidatou-se ao projecto e agora quer continuar a exercer medicina em Portugal e visitar o seu país de origem nas férias.

A mulher, também médica, veio morar para Portugal e actualmente trabalham ambos no Hospital de Viseu, onde estão a tirar as especialidades de anestesista e pediatria.

"Os exames foram muito difíceis por causa da língua. Tive de estudar muito. Mas com força de vontade consegui", adiantou, sublinhando que nunca foi discriminado e que até tem pacientes que "não se importam de demorar três horas nas urgências para que seja vista uma simples tac".

O ucraniano é também um dos rostos do livro "Voltar a ser Médico", que o jornalista Ricardo Dias Felner lançou hoje na Gulbenkian.

No livro, o jornalista conta 11 estórias de médicos que puderam reiniciar as suas carreiras profissionais, interrompidas quando decidiram imigrar para Portugal à procura de melhores condições de vida.

Outra das personagens do livro é a médica do Sara Ocidental Raabub Mehdi, que também participou no debate que teve lugar na Gulbenkian.

Raabub Mehdi tirou o curso em Cuba, onde viveu 13 anos e veio morar para Portugal "pela aventura e desafio".

"Conhecia alguns portugueses que iam a Cuba de férias ou fazer tratamentos e foi através deles que vim para Portugal", disse a médica, adiantando que um dos maiores desafios foi conseguir legalizar- se e conseguir equivalência das habilitações.

"Sempre tive esperança em exercer medicina em Portugal", uma meta que conseguiu dois anos depois de viver no país, disse.

"Conseguia matar as saudades da profissão porque o meu trabalho era tratar de um menino doente", sublinhou a médica do Hospital Garcia da Horta, em Almada.

Raabub Mehdi quer continuar a trabalhar em Portugal, um país que sempre a "tratou bem" e nunca a discriminou.

Financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o Projecto de Reconhecimento de Habilitações de Médicos procurou apoiar o crescente número de profissionais de saúde que imigraram para Portugal sem conseguirem equivalência de actividade e ajudou a integrar 106 médicos no Serviço Nacional de Saúde através de uma parceria com o Serviço Jesuíta de Apoio aos Refugiados.

O projecto teve uma duração de três anos e meio e apoiou um total de 120 médicos imigrantes, dos quais 65 homens e 55 mulheres, 91 por cento originários de países do Leste Europeu, seis por cento de países africanos de língua portuguesa e os restantes três por cento de Cuba e outros países africanos.

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