Meninos da Casa Criança de Tires sonham com obras de remodelação

A "sala velha" da casa que acolhe os filhos das reclusas da prisão de Tires passou a chamar-se "sala azul" depois da remodelação feita por um programa televisivo, que aguçou o apetite das crianças por obras de melhoramento.

Agência LUSA /

Para os 12 meninos da Casa da Criança de Tires, situada nas imediações exteriores do estabelecimento prisional, no concelho de Cascais, o desejo de estar sob o tecto pintado de estrelas da rebaptizada "sala azul", a ver filmes e a brincar entre a hora do banho e o jantar, passou a ser a mais eficaz recompensa por um bom comportamento diário.

"Antes era a sala velha, agora é a sala azul", diz João (nome fictício), com a capacidade de síntese dos seus oito anos.

Luísa (nome fictício), também com oito anos, ficou "de boca aberta" quando as portas se abriram pela primeira vez depois das obras e mostraram uma "sala muito mais fixe".

Quando, há menos de um mês, a responsável daquele centro de acolhimento temporário, Teresa Frazão, pôs a circular um e-mail com a lista das necessidades da casa, não esperava a generosidade que encheu a despensa, equipou a "sala azul" com uma televisão e um vídeo e proporcionou rádios aos meninos, entre outras ofertas.

"O que temos tido mais dificuldade é em arranjar uma empresa que patrocine os materiais de construção e a mão-de-obra para fazer as remodelações exteriores e interiores. Eles merecem que a casa seja toda como a sala azul", disse à Lusa a directora-adjunta do centro.

Três arquitectos já se ofereceram para fazer o projecto das obras.

A Casa da Criança de Tires é um projecto da Fundação Champagnat, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), criada em 2001, e que funciona em parceria com o Ministério da Justiça, a Segurança Social e a Câmara Municipal de Cascais.

Foi criada para acolher os filhos das reclusas de Tires que, tendo entre três e dez anos, não tivessem uma família estruturada para os receber quando deixassem de poder estar no estabelecimento prisional junto das mães, aos três anos.

Actualmente acolhe também cinco crianças retiradas da família por ordem do Tribunal de Menores, enviadas pela Segurança Social ou pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.

Além de oito monitores, a casa conta com o empenho de dezenas de voluntários que dão aulas de culinária, de Yoga, contam histórias (voluntários da Fundação do Gil), asseguram todas as despesas dos dois cães da instituição, ajudam nos trabalhos de casa ou simplesmente brincam com as crianças.

"As pessoas vão puxando energias positivas em cadeia e as coisas começam a chegar", afirmou Teresa Frazão.

Em Setembro, voluntários da Universidade Lusíada vão orientar sessões de musicoterapia, e a outros "amigos da Casa" ficará confiada a criação de uma horta pedagógica.

Nessa altura, haverá formação para os novos voluntários e para aqueles que queiram integrar o projecto "famílias amigas".

"Podem ser famílias com ou sem filhos, ou mesmo pessoas sozinhas, que apadrinhem uma criança, a levem a passear, a acompanhem nas suas actividades", disse Teresa Frazão.

O objectivo é "criar vínculos, dar aos meninos a possibilidade de contactarem com versões diferentes da ideia de família".

A estes "padrinhos" ficará clara a impossibilidade de adoptarem as crianças, até porque, apesar de a adopção ser um caminho possível para vários meninos da casa, a maior parte das reclusas não abre mão dos seus filhos.

"A maioria das reclusas não quer dar os filhos para adopção e a Casa não existe para os separar, mas para os unir", sublinhou.

Mães e filhos encontram-se, contudo, apenas durante duas horas por semana, à quinta-feira e ao domingo.

Nem sempre foi assim, mas a experiência dos técnicos revelou a necessidade de criar em mães e filhos a noção de "tempo de qualidade" e de não prejudicar as rotinas que, segundo Teresa Frazão, são "muito importantes" para as crianças.

Importante é também a responsabilização dos meninos nas tarefas diárias, por isso, todos põem a mesa do jantar e todos os dias duas crianças, rotativamente, ficam encarregues de tratar dos cães e dos peixes e de dar apoio aos adultos.

Semanalmente, crianças e monitores reúnem-se em "conselho familiar" para discutir as actividades, trocar ideias e sugestões e avaliar os comportamentos, que são sinalizados no final de cada dia com uma "carinha vermelha, amarela ou verde" num quadro fixado na sala de refeições.

Além das actividades proporcionadas pelos voluntários, as crianças têm aulas de natação e participam em actividades dos serviços educativos do Centro Cultural de Belém e da Fundação Calouste Gulbenkian.

Apesar do contributo das dezenas de voluntários, a Casa procura o apoio especializado na área do Direito, Pediatria e Psiquiatria.

Nesta última área, Teresa Frazão revela que, não obstante a "felicidade notória", muitas daquelas crianças sofrem de traumas precoces que carecem de tratamento adequado.

Estes problemas afectam sobretudo os mais velhos quando "tomam consciência de uma série de coisas", acrescentou a responsável.

Depois de atingirem os dez anos, a idade limite de permanência na Casa, as crianças podem ser reencaminhadas para outras instituições, voltar para as famílias ou para as mães, se estas já estiverem em liberdade e com "um projecto de vida estruturado" que as inclua.

As responsáveis da instituição reúnem-se periodicamente com as mães e em Setembro serão retomadas acções de formação parental que visam preparar o aguardado reencontro com os filhos.

Para Teresa Frazão, a Casa serve para que os meninos interiorizem que "são crianças que obedecem a regras e recebem miminhos, como as que vivem em famílias ditas normais".

"Nós lançamos sementes e esperamos que elas floresçam. No nosso trabalho não há lugar para fatalismos, sabemos que estas crianças não são nossas, têm famílias e é com essas famílias que tudo deve e pode correr bem", concluiu.


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