Mensagens de saudade chegam à televisão e Internet em Abril
Os anúncios de óbitos e as mensagens de saudade vão aparecer na televisão e circular na Internet graças a dois projectos pioneiros do Porto que arrancam em Abril para combater o monopólio das páginas de necrologia da imprensa.
A ideia de um obituário na televisão nasceu há cerca de cinco anos em forma de trabalho universitário dos alunos do 4º ano do Curso de Som e Imagem, da Universidade Católica, no Porto, Pedro Rocha e Luís Araújo.
Hoje, são sócios na produtora Tráfico Audiovisual e têm pronto a emitir no início de Abril, num canal regional do Porto na TV Cabo, o primeiro obituário televisivo em Portugal.
"Dizer Adeus" é o nome do formato que junta "informação e serviço público", terá duração de cerca de 10 minutos e será emitido duas vezes por dia, a meio da manhã e ao início da tarde.
No programa, em que a figura principal é o defunto, serão divulgadas fotografias e dados biográficos que passam em revista episódios da vida do falecido, acompanhados de indicações sobre a data e lugar dos velório, funeral ou missa de sétimo dia.
Previsto está igualmente um texto de homenagem que será lido em voz "off".
Segundo os mentores do projecto, o inédito espaço televisivo inspira-se nas páginas de necrologia dos jornais, mas "ambiciona" promover uma homenagem ao defunto.
Luís Araújo, da produtora Tráfico Audiovisual, garante que os anúncios serão "muito cuidados" por se tratar de um tema "delicado" como é participação da morte de um ente querido, que será sujeita a uma exposição muito maior do que é actualmente nos jornais.
Homenagear na televisão um familiar falecido vai custar entre 60 e 100 euros e o preço é apontado como uma das principais vantagens em relação aos jornais, onde um anúncio dos mais simples custa cerca de 130 euros.
Até agora, segundo Luís Araújo, o projecto tem suscitado sobretudo interrogações, mas os dois jovens acreditam que depois da primeira emissão "as pessoas vão perder o receio".
Também o site Internet www.obitos.net, iniciativa de uma empresa informática de S. Mamede de Infesta, em fase experimental até final do mês, enfrenta a relutância das pessoas e, até ao momento, não conseguiu nenhum anúncio para colocar on-line.
Armando Martins, administrador da empresa responsável pelo primeiro obituário on-line e co-autor da ideia, atribuiu esta situação ao conservadorismo que ainda existe em torno das questões relacionadas com a morte.
"Há alguma relutância em aderir a este projecto, talvez porque estejamos no Norte onde as pessoas são mais conservadoras" disse à agência Lusa.
Para já, a única mensagem na página Internet é o do falecimento da mãe de Armando Martins, que serve de exemplo do que as pessoas poderão encontrar no obituário on-line.
"Sabíamos que íamos ter dificuldades no início, mas a médio prazo acreditamos que o futuro da necrologia passa pela Internet", referiu.
Fotografias do próprio defunto, de familiares, de locais a que esteve ligado e notas biográficas são elementos que podem ser divulgados no site, que permite ainda o envio de condolências durante um ano.
O preço, que se situa nos 80 euros, e a variedade de opções são vantagens destacados por Armando Martins para justificar a escolha do obituário on-line.
Os dois projectos foram já apresentados à Associação de Agentes Funerários de Portugal, com sede no Porto, que aplaude a iniciativa, mas ressalva, no entanto, que as pessoas que vêem os anúncios da necrologia não estão ainda suficientemente familiarizadas com a Internet.
A associação assinou um protocolo com a empresa responsável pelo www.obitos.net e está a promover as facilidades do site junto dos seus associados, uma tarefa que não se tem revelado fácil.
"Não é fácil as pessoas entenderem este tipo de comunicação para dar a conhecer um óbito", disse à agência Lusa João Barbosa, presidente da associação.
As pessoas na faixa etária acima dos 50 anos, que é habitualmente a que mais vê os obituários do jornal, ainda não está familiarizada de uma maneira geral com a Internet, acrescentou.
João Barbosa prevê, no entanto, que dentro de 20 anos, quando a actual geração de jovens - que não fazem nada sem Internet - chegar à idade de se interessar pelos obituários a adesão irá ultrapassar as expectativas iniciais.
O responsável acredita que os dois novos obituários irão aumentar a concorrência e combater o monopólio dos jornais.