Mercado asiático ameaça cavalos-marinhos da Ria Formosa

A procura nos mercados chineses e japoneses pelos cavalos-marinhos está a dizimar a espécie na Ria Formosa, no Algarve. Um quilo que na origem é vendido por 1.500 euros, duplica o seu valor duas vezes e meia quando chega ao mercado asiático.

Cristina Sambado - RTP /
Idyli Tsakiri - Reuters

Os chineses e os japoneses acreditam que a versão seca e sem vísceras possui poderes medicinais - desde a cura do cancro do cólon, da impotência à fadiga.

O negócio com o mercado asiático terá começado há cerca de três anos. Na zona, da Ria Formosa, começaram a aparecer compradores asiáticos de pepinos do mar, um invertebrado da família da estrela-do-mar, apanhado aos milhões para satisfazer a procura na China e no Japão.

Em 2016, foram apreendidos em Espanha cerca de dois mil exemplares de cavalos-marinhos, que pesavam cerca de sete quilos. Os animais, provenientes da Ria Formosa, destinavam-se ao mercado chinês e iriam render aos traficantes cerca de 10 mil euros. No Sudoeste Asiático, um cavalo-marinho seco (a forma em que é comercializado) vale mais que vários quilos de peixe.

Todos os anos, a nível mundial, mais de 15 a 20 milhões de cavalos-marinhos são capturados e transformados em pó para utilização na medicina tradicional oriental. O pó dos cavalos-marinhos misturados com óleo é aplicado nos genitais masculinos, o que terá o mesmo efeito que o medicamento Viagra, utilizado para a impotência sexual masculina.

Nos últimos tempos, o valor das encomendas tem aumentado devido à escassez da espécie, o que poderá aliciar mais pescadores para a pesca ilegal de cavalos-marinhos. Para chegar a um quilo são necessários, no mínimo, cerca de 300 cavalos-marinhos.

Junto à doca de Olhão, e também noutras zonas próximas da Ria Formosa, compradores chineses e intermediários espanhóis abordam os pescadores locais e apresentam-lhes listas com as várias espécies que pretendem comprar.

Os pescadores que aceitam juntar-se à apanha ilegal reúnem-se durante a noite, quer com vara de arrasto, quer por mergulho. No último caso os cavalos-marinhos são capturados à mão, um a um, sem muito esforço.
Espécie está a desaparecer
Miguel Correia, biólogo e investigador do Centro de Ciência do Mar da Universidade do Algarve, afirmou ao Expresso que: “os rumores de que havia captura ilegal para o mercado asiático, de centenas de indivíduos diariamente, e de que se vendiam cavalos-marinhos secos a cinco e a dez euros a unidade, já eram há muito uma certeza”. A redução da espécie na Ria Formosa tem vindo a agravar-se. Em 2012, ano do último censo, a diminuição é de 80 por cento. As estimativas apontam para que atualmente não existam mais do que 155 mil cavalos-marinhos. Em apenas seis anos desapareceram quase 600 mil.

“O pior é que essa prática continua. É feita de forma brutal, por arrasto de vara, em que o barco arrasta uma rede fina que apanha tudo onde passa. Os cavalos-marinhos são sedentários, vivem em áreas de 100 metros quadrados e os arrastos são sempre superiores a isso. Dizimando totalmente os locais. Os que não são apanhados ficam isolados, reduzindo a possibilidade da reposição da população”.

Segundo o biólogo, “além de levar os cavalos-marinhos, a rede destrói as pradarias impossibilitando o regresso da espécie. Durante os mergulhos é visível o desaparecimento de largas extensões de ervas marinhas. Fica só lama, sem locais onde os cavalos-marinhos se agarrem”.
Tópicos
PUB