Metadona permite fugir às drogas duras e já deu frutos contra a infecção por Sida - João Goulão

Lisboa, 30 Nov (Lusa) - Mais de 17 mil portugueses tomam diariamente a sua dose de metadona para fugir das drogas duras. Um tratamento que já deu frutos na luta contra a sida, segundo o presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência.

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"A metadona foi um salto qualitativo ao nível da oferta de modalidades terapêuticas à população toxicodependente", disse João Goulão em entrevista à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial da Luta Contra a Sida, que se assinala segunda-feira, e dos 10 anos sobre o alargamento dos Programas de Substituição com Metadona às farmácias.

O Programa de Substituição com Metadona permitiu incluir no sistema de tratamento pessoas que, em alguns casos, estavam "demasiado causticadas" por tentativas sucessivas de tratamento e que "já tinham desistido de suspender os seus consumos".

Por outro lado, permitiu chegar a "franjas de população muito desorganizadas e aproximá-las do sistema de saúde".

Mesmo que alguns toxicodependentes não tivessem suspendido completamente os seus consumos, "alteraram significativamente os seus hábitos de uso", com a "diminuição significativa" de consumo de droga por via injectável e partilha de material de injecção.

"Por essa via houve ganhos na saúde que foram acumulados e se traduzem no facto de os toxicodependentes já não serem o contingente mais elevado nos números globais da sida em Portugal", frisou o responsável.

A 31 de Dezembro de 2007, cerca de 17.100 pessoas estavam em programas de substituição de opiáceos, das quais 76 por cento em metadona e os restantes em bupremorfina.

Há dez anos, quando se iniciou o tratamento no Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT) da Boavista, Porto, eram apenas cerca de mil os utentes.

Segundo o presidente do IDT, "um bom número" de internamentos actuais em unidades de desabituação é constituído por pessoas que vão ser internadas para se desabituarem da metadona e ficarem então "libertos em definitivo da dependência de opiáceos".

Isto deve-se ao facto do doente que toma metadona se manter dependente de um opiáceo: "Não da droga de rua, mas de um medicamento".

"Há como que uma transferência dessa dependência da droga para o medicamento metadona, mas felizmente há muitas situações em que as pessoas atingem um determinado grau de equilíbrio e estão disponíveis para romper também com essa dependência", justificou João Goulão.

Fazendo o balanço de mais de uma década da entrada em funcionamento do programa, João Goulão afirmou que a "taxa de sucesso medida na abstinência de uso de drogas ilegais e na capacidade das pessoas se reintegrarem do ponto de vista social, familiar e laboral é altíssima, a rondar os 80 por cento".

Sobre o indicador que muitos pretendem que seja utilizado - a paragem da utilização da metadona -, o responsável diz que não é o principal indicador de sucesso.

"O grande indicador é de facto a capacidade das pessoas terem uma maior esperança e qualidade de vida e isso obtém-se inquestionavelmente com o uso desta substância", sublinhou.

Nas palavras de João Goulão, a metadona não representa custos elevados para o Estado: "Se calhar, um toxicodependente utilizador de heroína consome num dia aquilo que gasta do erário público de metadona durante um ano".

"Os custos directos da substância são completamente desprezíveis se compararmos o custo para a economia nacional que constituiria a manutenção destas 17.100 pessoas a consumirem diariamente substância ilícitas", sustentou.

O programa foi alargado em 1998 à Associação Nacional de Farmácias (ANF) e à Ordem dos Farmacêuticos, o que permitiu encontrar "respostas de proximidade" para aliviar a necessidade das pessoas se deslocarem todos os dias ao centro de tratamento para fazer a sua toma.

"As pessoas sujeitas a este tipo de terapêutica têm de fazer uma toma diária e aquilo que pretendemos é que isso interfira o menos possível na sua vida, na sua disponibilidade para a reinserção social", explicou.

Nesse sentido, acrescentou, as farmácias surgiram como opção e é hoje possível os doentes com este tipo de terapêutica fazerem a sua toma diária na zona de residência ou do local de trabalho.


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