Milhares de polícias de todo o país no funeral de colega baleado
A pacatez da pequena aldeia de Soeira, terra natal do agente baleado na Cova da Moura, foi alterada pelo azul das fardas de milhares de polícias de todo o país que prestaram a última homenagem ao colega Ireneu Dinis.
Os menos de cem habitantes desta aldeia do concelho de Vinhais, em pleno Parque Natural de Montesinho, viram o seu quotidiano perturbado pela perda de um filho da terra, de 33 anos, em circunstâncias de extrema violência.
Tudo na aldeia se tornou pequeno para receber as manifestações de solidariedade e consternação, desde a Igreja ao cemitério, sem capacidade para albergarem a moldura humana de várias centenas de metros que se estendeu pela rua principal durante o cortejo fúnebre.
"O que aconteceu com ele poderia ter acontecido comigo, foi ele que me substituiu", desabafou Victor Novo, o colega da esquadra da Amadora que Ireneu Dinis rendeu na madrugada de 17 de Fevereiro, à uma hora da manhã.
Quatro horas depois ocorreu o tiroteio que vitimou mortalmente o agente transmontano, que há vários anos aguardava por resposta a um pedido de transferência para uma esquadra mais próxima da sua terra natal.
Nas mesmas circunstâncias encontra-se Victor Novo, que há 12 anos espera pela transferência para Viseu, e aproveitou para lembrar a dificuldade destes processos nas forças de segurança.
Victor Novo teve também a oportunidade de experimentar o "esforço violento" que Ireneu fazia frequentemente ao, depois de seis ou oito dias de trabalho, deslocar-se à sua aldeia para visitar os familiares, enfrentando mais de seis horas de viagem e as desconfortáveis estradas do Nordeste Transmontano.
Perante a união expressa no número de agentes que se juntou hoje ao funeral, Victor Novo defendeu que este espírito deve estar constantemente presente.
"Não devemos só unir-nos nestas alturas, quando acontece algo semelhante. Devem olhar um bocado mais para as forças de segurança, darem-nos condições para nós podermos efectuar o nosso trabalho", afirmou.
O funeral contou também com a presença de dirigentes nacionais das associações de polícias, como Rui Pires, da Associação Sócio Profissional da Polícia (ASPP), que se insurgiu contra as circunstâncias da morte do agente Ireneu.
"Não tenho memória na história da Polícia de Segurança Pública de um ataque a uma missão de patrulha", declarou.
As associações sindicais da polícia criticam as hierarquias e a falta de condições, sobre as quais o ministro da Administração Interna, Daniel Sanches, reafirmou hoje que só irá pronunciar-se segunda-feira, depois das eleições legislativas.
O ministro disse estar presente em Soeira "para prestar uma última homenagem ao agente Ireneu Dinis e para apresentar condolências sentidas à família".
"E obviamente eu, como todo o Governo, estamos solidários com todos os agentes da Polícia de Segurança Pública e indignados com um acto tão hediondo como este", declarou.
Daniel Sanches disse estar esperançado de que "os criminosos possam ser localizados e descobertos muito rapidamente e também muito rapidamente punidos por este hediondo crime".
O ministro garantiu ainda que "vão ser encontradas todas as soluções possiveis" para ajudar a família do agente morto, nomeadamente a mãe, que dependia do apoio do filho.
Daniel Sanches disse que essas diligências estão a ser feitas através da Segurança Social e da própria PSP.
O director nacional da Polícia, Branquinho Lobo, também presente no funeral do agente, escusou-se a fazer comentários sobre o caso, pedindo aos jornalistas "respeito" neste momento.
Referiu-se, no entanto às investigações sobre o caso, dizendo que "estamos em estado avançado, em estreita colaboração coma Polícia Judiciária".
Entretanto, cerca de duas dezenas de agentes da PSP da Guarda concentraram-se em silêncio ao princípio da tarde de hoje frente ao comando distrital, solidários com o colega a abatido a tiro na Cova da Moura.
A acção foi promovida pela ASPP, cujo delegado regional da Guarda e dirigente nacional, António Amoroso, disse à agência Lusa ser "um gesto simbólico mas profundo, que envolve todos aqueles que garantem e se expõem pela segurança das pessoas e bens".
Amoroso garantiu que a ASPP vai continuar a reivindicar, "por todas as formas ao seu alcance, a concessão de melhores condições de operacionalidade aos agentes da PSP, designadamente armamento mais moderno, viaturas mais modernas e seguras designadamente nas áreas de risco como é o caso da Cova da Moura".