Moradores do antigo Casal Ventoso de "luto" pelo fim do bairro

Os moradores do antigo Casal Ventoso, em Lisboa, irão reflectir no sábado sobre o "luto" que sentem pelo fim do bairro e o trauma que representou o realojamento, numa conferência promovida por um projecto social local.

Agência LUSA /

O psicólogo Manuel Domingos, que acompanha a população idosa do Casal Ventoso, acredita que o realojamento dos moradores do antigo bairro nas novas habitações foi um processo mais traumático do que aquele vivido pelos habitantes da Aldeia da Luz, no distrito de Évora, submersa devido à construção da barragem do Alqueva.

"A população da Aldeia da Luz teve um suporte psicológico e social que as acompanhou na mudança e no Casal Ventoso isso não aconteceu", disse à Lusa o especialista, que participa na conferência "Casal Ventoso - Saudades que consomem", sábado, pelas 15:00, no Bairro da Cabrinha, na Avenida de Ceuta.

A conferência é promovida pela associação Projecto Alkantara, que promove a inserção social das mais de 2.000 pessoas que foram realojadas pela Câmara de Lisboa - então dirigida por João Soares (PS) - nos bairros da Cabrinha, Loureiro e Ceuta-Sul.

Sete anos depois dos primeiros realojamentos - começaram em 1999 e prosseguiram em 2000 e 2001 - o neuropsicólogo Manuel Domingos considera que os habitantes do antigo bairro problemático lisboeta "continuam a ser excluídos" e que os mais prejudicados em todo o processo foram os idosos.

"As crianças vão-se adaptando mal ou bem, muitas vezes mal, mas os idosos são os excluídos dos excluídos", disse.

Segundo o especialista, nestes casos "a intervenção precoce é fundamental", para, numa "visão pedagógica", enquadrar a população na nova realidade.

Por outro lado, o psiquiatra Rui Macedo Neves considera que a conferência será uma oportunidade para "os moradores fazerem a catarse de um processo que pode ter sido traumatizante" e não um momento "para se tirar ilações sobre o assunto".

"O bairro era uma referência, boa ou má, neste caso muitas vezes seria má, mas era uma referência que estas pessoas tinham", disse o psiquiatra, acrescentando que "houve teias sociais de vizinhança e entreajuda que necessariamente se perderam".

A conferência é aberta a toda a população e prevê as intervenções de dirigentes das quatro colectividades que existiam no antigo bairro, o Águias Recreativo Clube, o Casalense Futebol Clube, Lisboa Futebol Clube e Clube Desportivo Santo António de Lisboa.

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