Moradores do Santa Filomena querem ficar porque não têm dinheiro para deixar as casas
Lisboa, 14 mai (Lusa) -- Os moradores do bairro de Santa Filomena, na Amadora, querem que a câmara adie a demolição das suas casas, porque o desemprego que atinge muitas das famílias impede que paguem uma renda de casa noutro local.
De acordo com Alcides Mendes, são cerca de 60 a 80 as famílias de metade do bairro de Santa Filomena que atualmente estão na iminência de serem desalojadas, mas tem sido difícil chegar a um número concreto porque "a câmara está a negociar com as pessoas uma a uma, sem uma solução de conjunto, e vem demolir as casas uma a uma".
"A autarquia está a demolir as casas e oferece para pagar três meses de renda às famílias", explicou.
Alcides Mendes, ligado à associação Espaço Jovem, está a ajudar os moradores a reunirem-se e a tomarem uma posição de conjunto porque a proposta da autarquia não cabe na bolsa dos moradores, a maior parte deles desempregados da construção civil.
"Neste momento em casa não lhes entra mais de 200 euros e a proposta da câmara é uma proposta que não cabe para essas pessoas, porque se pagarem 350 euros [de renda] e a câmara pagar dois ou três meses de renda, depois desses três meses o que é que as pessoas fazem?", questiona.
Para Alcides Mendes, as pessoas admitem que não têm direito a integrarem o programa de habitação, mas, como não têm para onde ir, querem chegar a um acordo com a câmara com base nos rendimentos que têm ou que os deixem ficar lá "até conseguirem melhorar a vida ou até conseguirem trabalho".
"A câmara está a tirar um problema para passar o problema para outras pessoas. Será que é para a polícia? Estas pessoas, para pagarem o resto da renda, têm de vir a assaltar a mim ou a outra pessoas para arranjar o dinheiro? Não vale a pena! O que é preciso é negociar", sugeriu, salientando que a maior parte dos moradores nesta situação estão legalizados, no fundo de desemprego e à procura de trabalho.
A polícia entrou hoje na casa de Manuel António Varela Vaz, desempregado da construção civil, e levou os seus pertences, para que a casa pudesse ser demolida.
Manuel Vaz não sabe onde vai dormir esta noite. A acreditar no que tem acontecido nos últimos tempos, vai ser acolhido por alguém no bairro de casas degradadas, onde há sempre lugar para mais um.
"Rebentaram a porta, tiraram as minhas coisas e agora hoje não tenho onde ir dormir. Estou aqui com esta roupa e não tenho outra para trocar", referiu.
Os três filhos e a mulher foram passar uns dias com a família e agora nem sabem se voltam.
"Trabalho quando encontro alguma coisa no caixote do lixo e vendo para o ferro velho. Trabalhava como pedreiro, mas agora não há trabalho e estou aqui a ver se desenrasco alguma coisinha", contou.
No bairro, os homens encostam-se pelas paredes e vão-se dirigindo para o microfone, para desabafar e apontar as casas que já lá não estão ou que está previsto que desapareçam.
José Fernandes, diabético e hipertenso, tem de deixar a casa até 15 de julho.
Trabalhava na construção civil e tem uma reforma "vergonhosa" de 70 euros a acrescer ao ordenado de 225 euros por mês que a mulher traz para casa.
"Fala-se na crise. Se quem tem dinheiro está em crise, nós, que já vivemos mal, a nossa crise como é que se chama? Miséria?! Não temos dinheiro nem para comer bem, quanto mais para pagar uma renda", afirmou.
O que José Fernandes gostaria era que a câmara o ajudasse a arranjar uma casa que pudesse pagar consoante os seus rendimentos, mas na câmara disseram-lhe para se desenrascar.
"Vamos todos para debaixo da ponte. Nem para debaixo da ponte. Já não dá, porque nós somos muitos. Portanto, deveriam arranjar uma solução", acrescentou.