Moradores optam por viver entre muros altos em nome da segurança
Os muros altos dos condomínios fechados e a vigilância 24 horas por dia são o preço a pagar pelos moradores por uma maior sensação de segurança, mas os especialistas dividem-se quanto aos impactos da proliferação destes empreendimentos em Lisboa.
A segurança foi uma das razões que levaram Adriano Machado a comprar uma casa num condomínio fechado em Sete Rios, junto ao Jardim Zoológico, mas a variedade de actividades proporcionadas num único local "também pesou muito".
"Posso estar em casa descansado e o meu filho andar a brincar na rua sem qualquer problema", disse à Lusa o morador, que diz não se incomodar de viver rodeado de muros altos e câmaras de vigilância.
Ana Abecassis optou por viver num condomínio fechado na Alta de Lisboa, no Lumiar, e explicou à Lusa que a área e a qualidade dos acabamentos foram os factores que mais pesaram na decisão de comprar a casa, mas depois constatou que este tipo de empreendimento oferecia "uma maior segurança".
"Moro num rés-do-chão e pensei pôr grades, mas logo desisti da ideia devido à segurança que o condomínio oferece e agora muitas vezes até deixo as janelas abertas", adiantou.
Relativamente ao facto de estar a ser vigiada 24 horas por dia, Ana Abecassis diz que já se habituou e que o segurança até é "um apoio para qualquer problema que possa existir".
A segurança das crianças foi a principal vantagem apontada por Cláudia Saavedra para escolher uma casa num condomínio fechado junto à segunda circular.
A "pequena desvantagem" que aponta são as divergências que por vezes ocorrem entre os moradores em relação ao espaço comum.
Para o gestor de condomínios José Lourenço, estas situações acontecem porque "os condomínios fechados são demasiado grandes e difíceis de gerir".
Para o responsável, a maioria das pessoas escolhe este tipo de habitação pela segurança e pela tranquilidade que oferece, mas muitos também pelo estatuto.
"Muitas pessoas optam por viver num condomínio para ter mais protagonismo e estatuto", sustentou.
Apesar de estes locais terem espaços que convidam ao convívio, como piscina e jardins, os moradores não se relacionam, constatou José Lourenço, que também mora num condomínio privado na Alta de Lisboa.
"Perdeu-se o hábito do vizinho, agora o que existe é o condómino", afirmou.
Alguns especialistas contactados pela Lusa assistem com apreensão ao crescimento destes guetos de novo tipo ocupados pelas classes mais favorecidas.
O estudo "Habitação e Mercado Imobiliário", elaborado pela Câmara de Lisboa em 2003, concluiu que era "relevante o peso relativo das moradias e a apetência para os condomínios fechados" quanto ao tipo de habitação procurada na cidade.
Segundo o estudo, 81 por cento da população reside em apartamentos, oito por cento em moradias e cinco por cento em condomínios privados.
O sociólogo Manuel Villaverde Cabral, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, diz que a actual oferta de condomínios fechados em Lisboa se deve "basicamente a motivos especulativos, dado que assim os promotores vendem não só o imobiliário como também todos os serviços à volta".
Segundo o especialista, "uma boa parte dos compradores são 'novos ricos', com nível cultural relativamente baixo para o nível económico e precisam de sinais exteriores de qualidade e moda".
Villaverde Cabral acredita que este tipo de empreendimento "ameaça de morte a antiga noção de cidade, lugar de cidadania, ao fazer desaparecer as ruas e as praças".
Também as relações de vizinhança são prejudicadas, na opinião do sociólogo: "parece que a vida dentro desses condomínios, segundo me contam, é bastante pobre de contactos e eventos", afirma.
Sobre o argumento da procura de uma maior segurança, o sociólogo considera que não se justifica numa cidade como Lisboa.
"A segurança em Lisboa-concelho é das mais elevadas do mundo, e não é nas periferias, onde realmente falta segurança, que se constroem os condomínios fechados", sustenta.
A opinião é partilhada por José Mateus, vice-presidente do Conselho Directivo Regional da Ordem dos Arquitectos, que considera que a proliferação dos condomínios "tende a criar células de segregação da população, transformando a cidade num monte de retalhos, de fragmentos ensimesmados".
"A cidade fica assim dividida entre os guetos de habitação social, destinados a populações desfavorecidas ou minoritárias, e os universos fechados das populações favorecidas", afirma.
O arquitecto sustenta que este fenómeno contribui para "destruir a ideia de cidade, que é mais feita das diferenças em sobreposição", classificando este tipo de habitação como "uma manifestação contrária à ideia de civismo".
Na opinião de José Mateus, seria positivo que a proliferação destes empreendimentos "não se tornasse uma prática corrente", privilegiando-se antes "a mistura de pessoas de diferentes faixas etárias e formações".
"Num bairro de condomínios, em cidades como São Paulo ou Joanesburgo, as pessoas deslocam-se de carro e cruzam-se nos semáforos, ao passo que num bairro tradicional, vão encontrando o vizinho, o senhor da mercearia, sentem o bulício ou o cheiro da madressilva", defendeu.
Posição diferente tem Paquete de Oliveira, sociólogo do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), que afirma que "no interior dos condomínios, gera-se um clima de maior liberdade e à-vontade".
Apesar de alguns condomínios se assemelharem a "+bunkers+, com grande controlo de quem entra e quem sai", Paquete de Oliveira explica que "quem opta por viver num condomínio fechado não oferece resistência" às regras de funcionamento destes espaços, que "aceita a troco de maior estabilidade, segurança e qualidade de habitação".
O sociólogo considera mesmo que os condomínios fechados, em geral ocupados pela classe média-alta, não ameaçam as relações de vizinhança.
"Há sítios onde os vizinhos organizam passeios a pé e de bicicleta, fazem magustos ou festas para crianças", exemplifica.
Paquete de Oliveira considera ainda que os condomínios fizeram surgir um novo fenómeno, juntando no mesmo sítio três gerações da mesma família: "reúne casais novos, alguns com filhos, que procuram a segurança e os espaços de recreio comum, além dos pais desses casais, já em idade de pré-reforma", afirmou.