Morreu Calvet de Magalhães, "um exemplo de diplomata completo"

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, António Monteiro, expressou hoje pesar pela morte do embaixador José Calvet de Magalhães, 89 anos, que considerou "um exemplo de diplomata completo".

Agência LUSA /

Em comunicado, António Monteiro afirma ter recebido "com tristeza" a notícia da morte de Calvet Magalhães, um diplomata "activo e determinado", que "manteve sempre uma atitude de discrição e de distanciamento em relação aos acontecimentos imediatos, privilegiando a ponderação dos interesses nacionais a longo prazo".

Monteiro destaca a importância do exemplo de Calvet de Magalhães para as gerações futuras de diplomatas portugueses.

"É bom símbolo para as novas gerações que integram ou aspiram à carreira diplomática. Calvet de Magalhães acompanhou-as, de resto, até há pouco tempo e foi sobretudo para elas que escreveu algumas obras em que dá conta das suas reflexões e experiências ao longo de uma carreira das mais prestigiadas do pós-guerra", sublinha.

Calvet de Magalhães "pertenceu ao pequeno grupo promotor do que hoje se chama diplomacia económica e marcou, com as suas ideias e acção, o pensamento político que deve acompanhar toda a acção diplomática relevante", afirma.

O chefe da diplomacia portuguesa expressa a sua homenagem ao "impulso decisivo que (Calvet de Magalhães) deu ao Instituto de Estudos Estratégicos e ao homem de cultura que tanto influenciou muitos na carreira diplomática".

Por seu turno, o Conselho Directivo do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) destaca, também em comunicado, "o apego à paz como valor e à diplomacia como seu instrumento, a sua convicção profunda de que a função essencial do diplomata é a de +fazedor da paz+, que constitui um traço forte do pensamento humanista".

"Beneficiámos durante os últimos 20 anos do seu conselho sempre lúcido e ponderado como Presidente do Conselho Geral do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais. Devemos-lhe imenso, tal como lhe deve imenso a diplomacia portuguesa, que durante tão longos anos serviu como brilho e com a independência de espírito que sempre o caracterizou", sublinha.

Calvet de Magalhães nasceu em Lisboa, a 26 de Outubro de 1915.

Formado em Direito pela Universidade de Lisboa, José Calvet de Magalhães ingressou no MNE em 1941. Ao longo da sua carreira trabalhou com mais de 20 ministros dos Negócios Estrangeiros. Quatro anos depois foi colocado nos Estados Unidos e em 1947 assumiu o posto de cônsul-geral em Cantão, onde assistiu ao fim da guerra civil chinesa e ao triunfo das forças comunistas.

Entre Julho de 1971 e Agosto de 1974 exerceu o cargo de secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, lugar do topo da carreira diplomática, período durante o qual negociou o Acordo com os Estados Unidos relativo à utilização da Base das Lajes.

Em 1974, a consagrar uma carreira a todos os títulos exemplar, foi nomeado embaixador junto da Santa Sé, tendo presidido às negociações para a revisão da Concordata, acordo que viria a ser assinado a 13 de Fevereiro de 1975. Em 1980 passa à disponibilidade e exerce as funções de consultor no Instituto Nacional de Administração, tendo sido chamado em 1983 para as negociações do novo Acordo com os Estados Unidos sobre a Base das Lajes. Desde 1985 é presidente do IEEI e 1995 ingressa na vida académica como Professor Associado da Universidade Autónoma de Lisboa e como Professor convidado da Universidade Nova de Lisboa em 2000.

Da extensa e diversificada bibliografia destacam-se quatro obras fundamentais: "A diplomacia pura" (1982), "Manual Diplomático" (1985) e "Breve história diplomática de Portugal (1990). A sua mais recente publicação "Diplomacia Doce e Amarga" permitiu uma abertura ao grande público das pequenas histórias da vida diplomática, revelando o sentido de humor e fina ironia do autor.

Calvet de Magalhães recebeu diversas condecorações. Em Portugal a Grã-Cruz da Ordem do Infante D.Henrique, na Alemanha a medalha de Grande Oficial da Ordem do Mérito, no Brasil a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul e a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, em Espanha a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Civil, em Itália a Grã-Cruz da Ordem do Piano, na Islândia a Grã-Cruz da Ordem do Falcão e da Ordem de Malta a Grã-Cruz da Ordem Soberana Militar Hospitalar de Malta.

O seu único filho, Peter Calvet de Magalhães vive nos Estados Unidos, onde o falecido embaixador deixa também uma neta e dois bisnetos.

O embaixador José Calvet de Magalhães, uma das grandes figuras da diplomacia portuguesa na segunda metade do século XX, morreu hoje em Lisboa, com 89 anos.

O funeral sai quarta-feira da Basílica da Estrela, às 14:30, para o jazigo da família no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

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